2019 marcou os 20 anos da AGEPOR e centenário do associativismo dos Agentes de Navegação

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O ano de 2019 chega ao seu término, e, com o culminar dos últimos minutos que antecedem a entrada em 2020, é incontornável recordar os pontos altos que marcaram o sector marítimo-portuário nacional. Entre eles está um dos momentos mais simbólicos do associativismo português: a celebração do centenário do associativismo dos Agentes de Navegação, e, em simultâneo, das duas décadas de existência da AGEPOR – Associação Dos Agentes De Navegação De Portugal. Tendo como palco a ENIDH, o sector juntou-se em torno de uma comemoração que serviu, não só para assinalar o longo trajecto de sucesso e tradição, mas também para elencar os grandes desafios de um futuro imprevisível e em constante mutação.

Depois de ter traçado um panorama geral dos momentos importantes de 2019, a Revista Cargo olha agora, com maior profundidade, para um dos tópicos que maior relevo trouxe ao ano que agora finda – a força do associativismo no contexto dos agentes de navegação e o papel da AGEPOR no domínio marítimo-portuário. Um olhar singularizado que vale a pena, ou não fosse esta actividade (e as sinergias que continua a encetar) um foco de agregação no âmbito dos assuntos do mar, do transporte marítimo e de uma panóplia de actividades que em torno de si giram.

Marcos temporais de uma actividade intemporal

Puxemos o filme atrás e recuemos às raízes da história: no dia 13 de Novembro de 1917 era concedido o alvará à Federação Marítima de Lisboa, apesar dos primeiros registos do movimento associativista reportarem a 1913. Foi precisamente o centenário desta data que a AGEPOR quis assinalar, num jantar que também comemorou os 20 anos da própria associação, nascida da fusão da APAN e da AGENOR, decorria o ano de 1999. A celebração de ambos os marcos temporais foi pretexto para um olhar analítico e reflexivo sobre o incontornável e sustentado progresso desta actividade: actualmente, o sector portuário em Portugal conta com cerca de 80 agentes de navegação, envolvendo aproximadamente 1.240 colaboradores. Em cada ano, registam-se mais de 10.000 escalas de navios nos portos nacionais, que transportam quase 100 milhões de toneladas.

O conjunto dos agentes de navegação, associados da AGEPOR, factura um valor anual de aproximadamente 450 milhões de euros, e, se olharmos para os últimos dez anos (período 2008-2018), registou-se um aumento de 36 milhões de toneladas de carga transportada, de 64 para quase 100 mil milhões de toneladas. O transporte marítimo, centro da actividade dos agentes de navegação, é responsável por cerca de 90% do comércio mundial. Em Portugal, em 2018, mais de 75% das importações e quase metade das exportações passaram pelos portos. Os principais países de destino são Alemanha, Reino Unido, Espanha, Países Baixos, Itália e França, ao nível europeu, EUA, Angola, Brasil e Marrocos, no resto do mundo.

Os desafios de um futuro em constante mutação

A pensar nas transformações que o futuro guarda na cartola, a AGEPOR identificou como maiores desafios do sector marítimo-portuário: a digitalização; a sustentabilidade ambiental (como são exemplo as novas regras de emissão de enxofre que entram em vigor a partir de 2020 e representarão um aumento de custos para a indústria na ordem dos 60 milhões de euros; ou a redução até 50% das emissões de gases com efeitos de estufa até 2050); a impressão 3D; a robotização e a automação, o big data, a Inteligência Artificial e Internet das Coisas. Um mundo desmaterializado mas que continuará a depender da mais-valia dos agentes de navegação e do transporte de cargas, autênticos símbolos da globalização.

Ainda que os agentes de navegação tenham hoje funções completamente diferentes das que desempenhavam há 100 anos, «a sua presença física nos portos e o seu papel enquanto interlocutores locais permanecem valiosos», sublinhou Rui D’Orey, presidente da associação, durante a sua intervenção. «Uma pequena demora na estadia de um navio custa muito mais a um armador do que qualquer poupança, sempre irrisória, no custo de um agente», acrescentou. Rui D’Orey relembrou também todas as direcções e órgãos sociais das várias associações que lhe precederam, bem como os colaboradores que no dia-a-dia concretizam e dão visibilidade ao trabalho realizado pela AGEPOR.

Rui d’Orey, presidente

Entre as apostas nacionais, com o intuito de acompanhar o progresso vertiginoso da digitalização, está, indubitavelmente, o trunfo da Janela Única Logística (JUL): um projecto em andamento e que foi alvo, em 2019, de um impulso forte que a catapultará, em 2020, para um papel agregador de referência nos portos portugueses, em prol da celeridade dos procedimentos, da interligação de dados e do fomento da competitividade holística, capaz de conectar portos ao hinterland com maior fluidez. «É prioritário avançar com a sua implementação, de forma a que a dimensão física seja complementada e suportada por uma dimensão digital», denotou Rui D’Orey, salientando que os agentes de navegação são peças-chave desta plataforma, uma vez que actuam como pivots na cadeia logística dos portos.

Em sintonia com o investimento infra-estrutural e com a aposta na digitalização deverá estar, também, a paz social: um requisito fundamental (e por vezes tão escasso) para a eficiente operacionalidade portuária. «Os portos nacionais, em especial o de Lisboa, têm sido continuamente assolados por greves ou ameaças de greve, desde 2012. Este é um aspecto negativo, porque não existe crescimento de um porto sem uma saudável cumplicidade entre os trabalhadores portuários e os demais stakeholders. Basta ver os portos nacionais que crescem e os que marcam passo ou definham: a correlação com a paz social é directa e clara. O crescimento do porto traz prosperidade para todos», rematou Rui D’Orey.

JUL: um progresso que Belmar da Costa (AGEPOR) já antecipava em 2017

agepor belmar da costa

Belmar da Costa, director executivo

A JUL é já um dos grandes projectos da actualidade do sector marítimo-portuário, tendo, em 2019, ganho um impulso notório, liderado pela acção da DGRM e pelo ímpeto do plano de aumento da competitividade portuária, traçado pelo Ministério do Mar da anterior legislatura. Mas, decorria o ano de 2017, já António Belmar da Costa se debruçava sobre a importância da aposta na JUL para a eficiência dos portos portugueses. «A passagem da Janela Única Portuária para a Janela Única Logística será muito positiva para Portugal, seremos dos primeiros países do mundo a fazer este trabalho», comentava o director executivo da AGEPOR, ao discursar durante o 20º Congresso da APLOG.

Elencando a «transparência» e a «celeridade» como pilares da evolução deste sistema, Belmar da Costa foi taxativo: para que se atingisse o sucesso, seria necessário colocar as administrações portuárias a remar para o mesmo lado – um requisito que, de facto, se veio a revelar vital para a homogénea aceitação da solução no sistema portuário nacional. É importante estar na vanguarda deste processo porque podemos replicar noutros países. Fizemo-lo com a JUP mas só nalguns países. Tentou-se sobretudo nos PALOP. Mas na Europa faltou conhecimento político da plataforma, temos de o conseguir agora com a JUL», comentou ainda o responsável da AGEPOR.

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