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António Costa: “Blockchain?… O que é isso?”

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Antonio CostaO transporte marítimo sempre foi uma indústria muito conservadora, digamos que, até, ortodoxa nalguns pormenores. Numa conferência, em Março último, foi acusada de estar atrasada mais de 30 anos na curva da tecnologia.

Segundo os mais inconformados, seria preciso mudar as mentalidades para lidar com a actual e enorme revolução digital à nossa volta. E, eis que… nos últimos meses, temos assistido à presença sistemática do vocábulo blockchain em tudo o que é notícia, artigo ou, até, declaração de responsáveis políticos, no que respeita à indústria marítima. Também as majors se têm desdobrado a comunicar a sua adesão ao conceito e parcerias com tecnológicas para o efeito. Ele é os exemplos da Maersk, CMA CGM e DNV GL, só para citar algumas.



Afinal, o que é isso de blockchain?

certificadosA blockchain é a tecnologia por detrás do funcionamento da moeda virtual bitcoin. No mundo digital, criar a transacção é o mais fácil; o difícil e mais importante é garantir a integridade da mesma. A integridade do negócio é a razão de ser de toda a economia. Senão, vejamos: o agente A tem algo que o agente B precisa (um bem); o agente B tem algo que o agente A também precisa (capital); ambos trocam esses valores e cada um fica a ganhar de forma, teoricamente, equivalente. É aqui que entra a blockchain, que é capaz de resolver o problema da integridade dessa transacção. Esta tecnologia é como se fosse uma longa corda à qual lhe vão sendo feitos nós ao longo de toda a sua extensão.

Imagine-se, agora, que sempre que é realizada uma transacção, do agente A com o agente B, é dado um nó nessa corda, logo a seguir ao último já feito.

Cada nó é um bloco (block) com informação sobre uma ou várias transacções encadeadas. O conjunto sucessivo desses blocos é, nem mais nem menos, o conceito de blockchain (corrente de blocos): o registo inviolável de todas as transacções alguma vez feitas na história do relacionamento desses agentes.

Fica assim garantido que a oferta é quantificada e que não é perdido o rasto a cada uma das unidades transaccionadas.

Cada nó (block) é inviolável e regista várias transacções – a original, em resultado do negócio dos agentes A e B, mas também todas as outras que lhe estão associadas (garantias bancárias, autorizações de importação, certificados de origem, etc. etc.). E se a transacção for cancelada, essa informação é somada ao bloco, nada é apagado; ou seja, nenhum nó é desfeito, far-se-á é um novo a seguir, com a nova informação. A blockchain é, então, como que um livro de registo, ao qual estão associadas algumas características: é inviolável, dispensa uma entidade central, onde as comissões são tendencialmente baixas e as transacções podem ser anónimas.

Isto significa, em termos práticos, que todos os participantes desta rede recebem as informações registadas em tempo real, como um backup de todo o histórico, sendo que nenhum deles tem poder de administrador bastante para alterar ou apagar qualquer informação. Por consenso entre máquinas, a rede aprova ou recusa dados e, se há alguma tentativa de fraude, ela impede o registo. Por estas razões, tudo o que existe nesse banco de dados é imutável e não susceptível a fraudes ou manipulações. Devido à sua arquitectura, que conta com criptografia e mecanismo de chaves públicas e privadas, a tecnologia blockchain oferece confiança absoluta ao utilizador.

Prova disso é o sucesso do bitcoin, o primeiro activo transaccionado pela blockchain que, por causa dessa confiança proporcionada pela rede, se tem valorizado, astronomicamente, no último ano.

Esta tecnologia compreende quatro pilares principais, que podem levar ao aumento da eficiência e redução de custos. São eles:

  • Consenso, porque todas as partes devem concordar com as transacções verificadas na rede;
  • Imutabilidade, porque qualquer coisa escrita no ‘livro’ não pode ser alterada;
  • Proveniência, porque existe registo da origem de cada activo; e
  • Privacidade, porque as permissões e a identidade garantem a transparência adequada às transacções – são seguras, autenticadas e verificáveis.

É por isso que governos, bancos, empresas e corporações têm estudado, testado e adoptado a tecnologia em vários segmentos, como por exemplo:

  • Cadeias de abastecimento: rastreio e controlo inviolável de cadeias de valor, logísticas e de produção, principalmente de alimentos, para garantia de procedência e qualidade de manipulação de produtos;
  • Gestão de identidade: esta tecnologia permite a identificação segura do indivíduo pela internet. Isso possibilita a criação de documentos únicos que integrem informações relevantes e necessárias do cidadão, como informações médicas, financeiras, profissionais e pessoais, tudo num único acesso controlado pelo próprio utilizador;
  • Contratos Inteligentes: são contratos desenvolvidos em código, auto-executáveis e capazes de dispensar intermediação de compras, vendas, acções, consultas, procedimentos e processos.

Uma infinidade de startups – bem como grandes empresas – estão a apostar no conceito, sugerindo que esta tecnologia irá mudar a forma como as mercadorias viajam pelo mundo. Por exemplo, a IBM e a Maersk irão aplicar a tecnologia blockchain ao transporte de contentores, tendo feito uma prova de conceito (POQ com a IBM em Setembro do ano passado), ao rastrear um contentor de flores desde Mombasa, na costa do Quénia, até Roterdão, nos Países Baixos.

Segundo a IBM, os custos associados ao processamento e administração de documentação comercial são muito aproximados aos custos reais do transporte físico. De acordo com Ramesh Gopinath, vice-presidente de pesquisa de blockchain da IBM, toda a documentação associada aos contentores pode ser totalmente digitalizada e os contentores rastreados. No POC de Setembro, o frete custava 2 mil USD e a ‘papelada’ ultrapassava os 300 USD, ou seja, 15% do valor do transporte. Nesta comunicação, a IBM disse que a solução fora projectada para ajudar a reduzir, ou eliminar, fraudes e erros, minimizar o tempo que os produtos gastam no processo de trânsito e despacho, melhorar a gestão de inventários e, finalmente, reduzir o desperdício e o custo.

Em simultâneo, a AP Moller-Maersk começou, em Maio, a usar a plataforma blockchain Insurwave para o seguro marítimo. Desenvolvida pela EY e pela Guardtime, a Insurwave usa tecnologia de base descentralizada de dados da plataforma de nuvem Microsoft Azure e segue os padrões globais de seguro.

No início de maio, a Microsoft Azure anunciou o lançamento do seu serviço de criação de aplicativos blockchain, o Azure Blockchain Workbench. Segundo o director de risco e seguro da Maersk, no primeiro ano, a empresa usará a plataforma para gerir 1.000 navios e apoiar mais de 500.000 transacções.

Também a certificadora DNV GL aderiu à utilização da tecnologia blockchain, sendo a pioneira no sector de certificação. Segundo os seus responsáveis, a empresa pretende dar garantia digital e permitir aos clientes maior transparência nos seus esforços na demonstração da sua conformidade e adesão às regras e normas a que devem obedecer.

Utilizando a criptografia para manter as informações seguras, a blockchain fornece a informação a partir de uma base de dados descentralizada – ‘banco de dados descentralizado / digital ledger’. Quando um certificado é emitido, os dados são digitalizados, sendo atribuída uma identidade digital a cada um. Todos os certificados são marcados e rastreáveis, sendo o original armazenado, em  segurança, numa rede de computadores na blockchain. Quando um certificado é renovado, ou quando é emitido um novo, os dados também são actualizados, em simultâneo, na blockchain.

A DNV GL oferece, assim, um conceito inovador de garantia digital, ajudando as empresas a criar confiança e transparência nos seus produtos e cadeias de abastecimento. Permite, no fundo, agilizar os procedimentos, utilizando os benefícios da tecnologia, como autenticação, descentralização e criptografia.

Concluindo, a tecnologia blockchain vem revolucionar a forma como identificamos e rastreamos digitalmente os produtos, levando a gestão da cadeia de abastecimento a um nível superior, melhorando a eficiência, a velocidade e a precisão, oferecendo um nível sem precedentes de transparência e conhecimento sobre as características e o status de um produto em tempo real. Com o recurso a esta tecnologia, os consumidores podem verificar, directamente, se o produto que pensam comprar tem origem ética, se os alimentos congelados foram transportados com segurança e na temperatura certa, se uma bolsa de luxo é autêntica ou rastrear um vinho do copo até à uva.

António Costa

Tem como formação base o Curso Geral de Pilotagem e o Curso Complementar de Pilotagem da ENIDH. Desempenhou funções de Oficial da Marinha Mercante, em navios nacionais e de outras bandeiras, de 3º Oficial a Comandante. Posteriormente, foi Piloto da Barra nos Portos do Sotavento Algarvio, Setúbal e Lisboa. Possui licenciaturas em “Gestão de Tecnologias Marítimas” e “Administração e Gestão Marítimas”, Mestrado em “Gestão da Qualidade em Serviços” e o Curso de Especialização referente ao 1º ano do curso de Mestrado de Pilotagem. Após aposentação como Piloto de Barra, tem desempenhado funções de formador de Náutica de Recreio e de Gestão Marítimo-Portuária, além de Consultor Marítimo Sénior na Área dos Transportes Marítimos e Organização Portuária.

Ver também:

Blockchain: A Revolução invisível que também já chegou à logística



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