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Blockchain: A Revolução invisível que também já chegou à logística

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Depois do advento da contentoriza­ção, que entre as décadas de 50 e 60 emergiu enquanto padrão funcional generalizado no que ao transporte de mercadorias diz respeito, a indústria caminha agora a passos largos rumo a um novo fenómeno de ruptura com o passado, que promete revolucionar a configuração da cadeia logística e a forma como são erigidas e mediadas as relações entre todos os componentes activos no processo de transporte de um bem.

Se com a luminosa ideia de Malcom McLean o sector cortou significativa­mente os custos e agilizou o processa­mento intermodal de carga, deitando as bases para a estandardização do trans­porte contentorizado, com a chegada da inovadora tecnologia Blockchain o progresso será proporcionalmente be­néfico e promete transformar também, para sempre, o paradigma mundial do Transporte e da Logística.

A irrupção desta tecnologia de sof­tware vem corroborar o papel crucial que a vertente digital adquiriu neste novo milénio no contexto da indústria do shipping: migrando do domínio do famigerado Bitcoin para a arena do pro­cesso logístico, o Blockchain apresenta inúmeras potencialidades que prometem redimensionar o mundo dos negócios – e, como veremos à frente, da logística!

Para Bettina Warburg, especialista em Blockchain, esta tecnologia trata-se de «uma nova instituição tecnológica que fundamentalmente mudará a forma como transaccionamos valores», ten­do por base um propósito existencial bastante intrínseco à socialização: a confiança.

«Apesar da tecnologia Blockchain ser relativamente nova, é também o segui­mento de uma história muito humana: nós buscamos formas de reduzir a incer­teza mútua para que possamos transac­cionar valores», afirmou, explicando que as instituições tradicionais que validam e regulam as trocas comerciais pode­rão ser substituídas, progressivamen­te, pela institucionalização do software Blockchain: «Estamos a entrar numa profunda e radical evolução na forma como interagimos e transaccionamos, porque, pela primeira vez, poderemos reduzir a incerteza, não apenas através de instituições políticas e económicas, mas através da tecnologia», rematou, numa conferência TED Summit, ocor­rida no mês de Junho do ano passado.

Blockchain na cadeia logística: final­mente, a transparência tão desejada

O que é, então, a tecnologia Block­chain? Originalmente criada para validar e registar transacções no domínio do Bitcoin, trata-se de uma base de dados descentralizada que alberga e compila um registo de activos/bens e transac­ções ao longo de uma rede P2P (peer-to-peer), funcionando como um registo público de propriedade que cristaliza e ao mesmo tempo actualiza todas as tro­cas comerciais, a identidade dos agen­tes e valores envolvidos, assim fixando um banco de dados permanentemente acessível a todos os stakeholders.

Como uma cadeia de informações que interliga todos os intervenientes (rastreamento de todos os elementos envolvidos, tanto na criação do produto como na sua distribuição, deste a ma­téria-prima ao produto final que chega às mãos do consumidor), o Blockchain tem o condão de distribuir validação de modo equitativo e horizontal, usando a criptografia para impedir quaisquer anomalias, emendas ou corrupções no encadeamento das informações regista­das – um trunfo a favor da transparên­cia da cadeia logística e da confiança entre pares.

Aplicada à integridade, celeridade e transparência da moderna cadeia logís­tica, esta tecnologia permite estruturar blocos de dados sequenciados a partir das várias etapas do processo, des­de as matérias-primas utilizadas para fabricar o produto, passando pelas fa­ses de manufacturação, fornecimento, armazenagem, transporte, até ao seu destino final.

O total e disseminado feedback deste sistema intensifica o grau de comunica­ção que deve estar presente nos even­tos que compõem a cadeia logística (ou qualquer outra transacção), assim possibilitando que todas as trocas pos­sam ser discriminadas e identificadas até ao seu ponto de origem, sendo até possível usar esse mesmo feedback para prever comportamentos futuros e executar planos de contingência ou políticas de adaptação a uma realidade sempre em transmutação.

«Eu vejo o Blockchain como uma forma dos transportadores se protege­rem, para oficialmente entregarem os bens à entidade seguinte na cadeia de abastecimento», comentou Jim Hayden,

Vice-presidente Executivo de Produ­tos na empresa Savi Technology, ao site ‘Bitcoin Isle’, acrescentando que a tecnologia «pode ajudar os transporta­dores no que toca a bens danificados. Se ambas as partes puderem certificar que durante a transferência não houve dano, isso pode ajudar com as segu­radoras. Pode ajudá-los a lidar com multas por atrasos ou danos – poderá ser provado o contrário, em vez de se confiar exclusivamente na palavra do destinatário».

Para Hayden e para a Savi Technolo­gy, o Blockchain será extremamente útil na monitorização (através de sensores RFID) dos produtos electrónicos durante o transporte, com intuito de preservar a sua integridade e estruturar blocos de dados que permitam saber quem estava responsável pelo produto, qual a loca­lização, qual a temperatura e se houve algum tipo de choque (potencialmente danificador) ou mesmo até roubo – no fundo, utilizar a tecnologia para identifi­car erros na cadeia de abastecimento.

«O Blockchain poderá levar-nos à desintermediação», concluiu Hayden: «Deixaremos de necessitar de inter­mediários, as transacções poderão ser validadas em todo o globo, deixaremos de precisar de um banco central para dar luz verde às operações, ou de qual­quer outro tipo de agência».

Desintermediando e desmateriali­zando, partilhando dados sem neces­sidade de uma autoridade central e estruturando uma base de dados que radiografa transacções, pagamentos, auditorias, encomendas, inventários, integridade da carga e muito mais, o Blockchain oferece benefícios cruciais que serão vitais para a modernização do paradigma do transporte e da logística: conformidade e transparência a toda a prova, prevenindo os chamados ‘silos organizacionais’ nas variadas estruturas da cadeia de abastecimento e assim impulsionando a produtividade; maior eficiência no rastreamento de encomen­das e activos, dada a capacidade da tecnologia de materializar data sobre o ciclo de vida de um produto, os seus detalhes de manufacturação, dados do fornecedor e informação logística; re­dução de erros no processamento de pagamentos e na execução de audito­rias, através da criação de um relato documental finito que isola e identifica a origem do problema de uma forma indubitavelmente mais fiável que a uti­lizada por entidades como bancos ou empresas de auditoria; maior facilidade na detecção de tentativas de fraude, já que a função hash transforma, de modo unidireccional, os dados de recepção num código numérico singular, assim constituindo uma cadeia imutável de informação que é virtualmente incorrup­tível, já que a introdução de um dado falso/modificação é imediatamente de­tectada devido à globalidade interliga­da dos dados já verificados e tratados; maior confiança entre clientes, dada a elevada ‘visibilidade’ do produto (pro­veniência, matérias-primas usadas) e construção de uma relação de confiança face à qualidade comprovada do bem, que pode até ir além das informações do fornecedor; feedback em tempo real por parte dos consumidores, que tam­bém pode ser compilado em blocos de dados, traçando o historial avaliativo de uma determinada oferta, marca ou tipo de produto; maior escalabilidade, na sequência desse feedback, numa demonstração de como o Blockchain pode ser usado para identificar poten­ciais tendências e orquestrar respostas às novas exigências do mercado.

O Blockfreight e os exemplos pio­neiros da aplicação da tecnologia Blockchain

Existem já no terreno alguns projec­tos pioneiros que utilizam a tecnologia Blockchain para incrementar os seus negócios – a Marine Transport Inter­national (MIT) encontra-se já a aplicar esta tecnologia para registar, compilar e sistematizar dados relativos à Massa Bruta Verificada (sigla VGM em inglês), na sequência das últimas alterações à Convenção SOLAS. «Em vez da men­sagem VGM ser sequencialmente en­viada a vários constituintes da cadeia logística, a nossa plataforma providen­cia uma abordagem descentralizada a essa tarefa», explicou Jody Cleworth, chefe executiva do MIT.

Esta introdução do Blockchain na in­dústria do transporte marítimo contento­rizado é já uma pulsão transformadora do sector, na medida em que «conecta a cadeia logística de um modo nunca antes visto pela indústria», palavras usadas pelo MIT aquando da divulga­ção da adopção da plataforma TrustMe. Para o MIT, a plataforma possibilita a criação de «ecossistemas negociais eficientes entre actores da cadeia de abastecimento» e «acelera o fluxo de informação distribuída». «A utilização da solução TrustMe faz com que os dados VGM estejam permanentemente acessíveis às administrações portuá­rias, aos carregadores e aos donos das mercadorias», elucidou o MIT, sendo esta desmaterialização um factor miti­gador da burocracia e da ineficiência comunicacional entre partes.

«A quantidade de contentores pro­cessada anualmente significa que, descentralizar com segurança a gestão desses contentores conduzirá a uma radical redução da complexidade do shipping», afirmou Cleworth.

Também a líder de mercado Maersk Line abraçou esta revolução, encetando com a IBM uma parceria com o objectivo de desmaterializar o fluxo de informa­ção associado ao transporte marítimo de contentores. A tecnologia tem vindo a ser desenvolvida durante os últimos anos e começa agora a ser testada com algumas instituições e clientes da trans­portadora dinamarquesa.

«Como um integrador global de logís­tica de contentores com a ambição de digitalizar o comércio global, estamos entusiasmados com esta cooperação e o seu potencial de aumento subs­tancial da eficiência e da produtividade das cadeias de abastecimento globais, ao mesmo tempo que reduz a fraude e aumenta a segurança», explicitou o Chief Digital Officer da Maersk, Ibrahim Gokcen, aquando da divulgação da parceria. «Os projectos que estamos a desenvolver com a IBM têm como objectivo a exploração de tecnologias disruptivas como o Blockchain para resolver problemas reais dos clientes e criar modelos de negócio inovadores para todo o sector. Esperamos que as soluções nas quais estamos a trabalhar não apenas reduzam o custo dos bens para os consumidores, mas também tornem o comércio global mais acessível a um grande número de operadores, tanto dos países emergentes como dos países desenvolvidos», acrescentou.

Com o transporte de carga contento­rizada em mente, também a australiana Blockfreight se lançou no mercado das soluções digitais, apresentando-se, em 2016, como «o Blockchain do frete glo­bal» – «a nossa rede permite que as aplicações sejam construídas para que a cadeia de suprimentos traga inovação e eficiência ao transporte de carga, à logística e ao comércio de contentores», explicou Julian Smith, co-fundador da empresa, à revista BTC Manager.

Redução do custo dos fretes, celeri­dade de entrega e maior eficiência no registo e tratamento de dados são os objectivos primaciais da Blockfreight, que em grande parte serão possíveis através da simplificação do processo de shipping e da desburocratização da famigerada Bill of Lading (BL).

Às portas da auto-gestão digital, estamos a um passo de uma relação simbiótica entre a ‘Internet das Coisas’ e os sistemas de gestão das cadeias logísticas – o futuro dirá se a profecia de um novo mundo se concretizará, para benefício de todos.

Bruno Falcão Cardoso

Este artigo é parte integrante da edição nº 266 da Revista Cargo (páginas 6 a 8)

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