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Bruce Dawson: «O Terminal do Barreiro e as explicações que faltam»

Marítimo, OpiniãoComentários fechados em Bruce Dawson: «O Terminal do Barreiro e as explicações que faltam»1304
Tempo de Leitura: 4 minutos

A polémica que, há semanas, causou grande ruído, mas que entretanto já parece ultrapassada, sobre as verbas destinadas às artes em Portugal, área para cujo financiamento parece difícil obter dois ou três milhões de euros, fez-me pensar de novo como há disponibilidade financeira para projetos com orçamentos astronómicos e por verbas tão pequenas se gera sempre uma enorme polémica.

Esta não é uma atuação exclusiva do atual governo. Em anteriores executivos, anunciaram-se projetos com orçamentos avultados para a nossa pequena economia, o que, já na altura, me pareceu surpreendente: os fundos pareciam cair do céu em rios de fantasia.



Até naqueles que se suspenderam, como a linha ferroviária de alta velocidade, conhecida como TGV – para a qual se chegou mesmo a construir um troço –, ou o novo aeroporto de Lisboa, se gastaram rios de dinheiro em estudos e projetos que nunca viram a luz do dia. Aonde ficaram a justiça, a moralidade ou o interesse para a nossa economia desses fundos desperdiçados? Face a esta realidade, é fácil concluir que a cultura ou a educação não contam neste país.

Terminal Multimodal do Barreiro - Câmara Municipal do BarreiroEsta reflexão conduziu-me a questionar o ponto de situação do projeto do Terminal do Barreiro. Também para este se fizeram (e continuam a fazer) estudos – só de impacto ambiental vamos no segundo – sem que nunca se tenha definido concretamente o seu fim.

Assumindo que os estudos são financiados pelo Orçamento de Estado, são recuperados mais tarde ou são colocados na gaveta?

Imagino que o projeto vá mesmo para a frente para depois ser entregue, em regime de concessão, a um operador, que tanto pode ser um grande armador como um operador de terminal. Seja como for, presumo que o acordo já esteja avançado, até porque já não se terá gastado pouco em estudos…

Mas eis que fico surpreendido quando há semanas leio nos jornais que o projeto foi alterado de modo a movimentar não apenas contentores, como previsto até aqui, mas também outras tipologias de carga. Será mais pequeno e multiuso, disse a ministra do Mar.

Será possível que não exista movimento suficiente para um terminal só de contentores na margem sul do rio?

Sendo um terminal misto, quais serão os seus operadores? E os utilizadores?

Porto de Setúbal

Porto de Setúbal

Será mesmo impossível que o porto de Setúbal, a apenas 30 quilómetros, não permita a criação de um terminal multiuso?

Precisamos de explicações para estas questões, bem como para qual o objetivo dos terminais existentes na margem norte do Tejo? Com a construção do terminal do Barreiro, de acordo com esta nova configuração anunciada pelo governo, desaparecem ou mantêm-se? E se se mantêm, quando e como vão resolver os problemas existentes de acessos? Isto, sabendo nós que grande percentagem da carga local é expedida do porto de Lisboa, pelo que seria difícil, senão impossível, terminar por completo a movimentação de carga nesta margem do rio…

O que eu gostaria era de saber mais sobre a macro-estratégia para a construção de um novo terminal na área da Grande Lisboa, em vez que estar sempre a ler sobre microplanos.

E, por isso, volto a questionar: tanta polémica por causa do financiamento às artes, que tanto interessa a todos, mas nenhuma sobre o terminal do Barreiro, onde já se terá gastado e continuam a gastar fundos públicos?

Para quem desenvolve a sua atividade na área das operações marítimas, o projeto do terminal do Barreiro é de extrema importância. E não é só porque trará um grande desenvolvimento a toda a área metropolitana de Lisboa, mas porque representa um grande passo para a economia nacional.

A construção de um terminal de raiz é essencial. No entanto, acredito que terá de haver mais clareza sobre quais os fins a que se destina. Será um terminal destinado a movimento de carga local ou a transhipment ou ambos? São respostas a esta e outras questões que deveriam ser respondidas num macroplano.

O povo português merece explicações sobre projetos desta dimensão, que têm um grande impacto na nossa economia. No entanto, ainda ninguém as deu? Ou será porque ainda ninguém as pediu?

Bruce Dawson

Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)



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