Bruce Dawson: “A paralisia do Brexit”

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A Seleção Nacional da Inglaterra deu muitas alegrias aos britânicos e contribuiu para unir o país em torno do objetivo do Mundial de Futebol. Ficou-se pelo quarto lugar, mas foi mais longe do que se antevia e, por isso, deixou o povo inglês satisfeito. Muito diferente continua a ser toda a paralisia nas negociações em torno do Brexit, que só contribuem para desiludir e cansar os britânicos que, recordo, votaram pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia há dois anos…

Os mais fervorosos defensores do Brexit, nomeadamente a ala direita do Partido Conservador, acreditam que 52% dos votos no referendo de há dois anos legitimam um hard Brexit, ou seja, a saída total do espaço comunitário, independentemente das consequências. É-lhes indiferente que Londres lidere o mundo financeiro europeu e que uma saída total implique necessariamente graves desfechos. O que lhes preocupa é que a União Europeia controle o país, especialmente na área da Justiça, nem que seja em apenas 1%.

Uma das consequências do hard Brexit seria a necessidade de criar de novo uma fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, algo que os Irlandeses não aceitam. Até já se sugeriu uma alfândega em pleno mar Irlandês…



airbus fabrica beluga

Airbus ameaça transferir as suas fábricas para o Continente

Como é óbvio, empresas, indústrias, confederações e instituições que representam ramos empresariais e câmaras de comércio têm-se juntado às vozes de protesto contra esta solução. A Jaguar, que atualmente tem gestão Indiana, emprega em solo britânico 40.000 trabalhadores e, indiretamente, mais de 200.000. Veio já a público dizer que a opção de hard Brexit lhe custaria cerca de 1,2 biliões de libras. Também a Airbus tem subido o tom de protesto, ameaçando transferir as suas fábricas para o Continente, afetando aproximadamente 100.000 colaboradores ingleses.

Ao impasse nas negociações junta-se a estagnação no investimento. Ninguém vai investir num Estado em que há este nível de incerteza.

O que me surpreende é que nunca se pense que 48% da população, uma parte substancial do povo britânico, votaram pela permanência do país na União Europeia, além de que uma grande parte dos 52% que votaram a favor do Brexit, desejam uma saída soft, com ligações negociadas ao espaço comunitário.

O cerne da questão é: 60% do comércio do Reino Unido é com a União Europeia. Será que os que são a favor de um hard Brexit pensam que substituem esta percentagem através de negócios com outros países de um dia para o outro? Fantasia ou suicídio coletivo?

Apesar de estar em minoria no Governo, tem sido esta ala direita do Partido Conservador que tem pressionado a Primeira-Ministra britânica a optar por uma saída total do país da União Europeia, até porque a sua representação no Parlamento é bastante expressiva.

theresa may brexitApesar disso, Theresa May parece sensível aos argumentos dos empresários e aos seus protestos contra esta solução. Com coragem, elaborou uma proposta de saída soft, uma proposta pragmática e leve. Na prática, Theresa May propõe a negociação de um novo acordo alfandegário para a indústria para compensar a saída da União Europeia, bem como mantém as duas Irlandas sem fronteiras.

Para os conservadores radicais, esta proposta não faz sentido, porque, dizem, vai contra o sentido de voto do povo britânico no referendo de há dois anos. O conflito chegou a tal ponto que dois ministros se demitiram, bem como outros elementos do executivo.

No entanto, são sete os ministros que defendem uma saída total. A demissão de dois, não me parece, de todo, expressiva para que se mantenha esta paralisia.

Certo é que, aos empresários, a proposta agradou. Perder uma larga parte do seu negócio ou transferir a produção para o Continente acarretaria perdas muito significativas. Mas será que já podem cantar vitória?

Ninguém consegue adivinhar o que se passará nos próximos dias. Haverá mais saídas do Governo? Ou será que Theresa May se conseguiu livrar dos seus maiores opositores dentro do executivo que lidera?

A ala mais radical sabe que não existe no Partido Conservador uma alternativa credível à atual líder e que, se fazem passar uma moção de censura à Primeira-Ministra, May vê-se impedida pelos estatutos do partido de concorrer a uma nova liderança.

boris johnsonNo entanto, é muito possível que Theresa May caia. Afinal, são só precisos 48 deputados para a moção passar. Aí, o mais provável seria a fação de Boris Johnson subir ao poder, sendo que a alternativa que ele oferece levaria o país para o desconhecido, o risco e, até, para uma eventual recessão. Só que este cenário poderia provocar eleições gerais e abrir a porta ao Partido Trabalhista que, nunca como agora, se inclinou tanto à Esquerda.

Importantíssimo é também perceber se a União Europeia vai acolher positivamente a proposta do Governo Britânico. É que também no seio do espaço comunitário parece haver posições divergentes entre a Comissão e alguns governos. Há países, como a Alemanha, que exporta muita da sua indústria automóvel para o Reino Unido, que teriam muito a perder com uma saída radical da Grã-Bretanha da Europa, mas, a União Europeia não quer passar a imagem de cedência a um país, encorajando as saídas de outros países.

Seja como for, esta parece a derradeira oportunidade para se chegar a um acordo. Não sabemos o que as próximas semanas nos reservam. Há vários cenários possíveis, sendo o mais radical a realização de eleições gerais no Reino Unido ou mesmo a realização de novo referendo.

Certo é que faltam apenas nove meses para a saída oficial do Reino Unido da União Europeia e a paralisia continua.

Bruce Dawson

Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

Ver também:

Bruce Dawson: «Que Brexit Agora?»



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