Tecnológica Circle de olhos em Portugal: «Um país que está avançado na digitalização»
Entrevistas, Marítimo 11 Abril, 2018 Comentários fechados em Tecnológica Circle de olhos em Portugal: «Um país que está avançado na digitalização» 1439Fundada há meia década, a italiana Circle tem ganho prestígio no sector dos transportes e logística, em particular em Itália. A especialista tecnológica falou à Revista Cargo dos diversos projectos em que está envolvida e admitiu que Portugal – onde já tem alguns projectos – é um dos países prioritários na sua agenda.
Conte-nos, de forma resumida, a história da Circle.
A Circle nasceu em 2012 com sete pessoas que vinham de uma empresa de TI maior, e o foco esteve, desde o início, nas áreas de transporte e logística. Nessa altura, começámos a trabalhar com alguns actores chave da cadeia logística, tanto do lado da administração pública italiana (Alfândega) como do lado privado, dos portos e terminais no inland.
Desde o início que a nossa abordagem, que colocou a Circle numa posição distintiva no mercado, foi centrada no apoio ao desenvolvimento do negócio dos nossos clientes, com três componentes essenciais: a reengenharia dos complexos processos de transporte e logística; a sua simplificação e digitalização, com módulos específicos de software na procura de tornar a logística intermodal mais simples; e potenciando a inovação relacionada com a utilização de fundos nacionais e europeus.
Hoje, somos uma equipa de aproximadamente 50 pessoas que oferece variadas soluções na cadeia logística para uma grande variedade de stakeholders (portos, terminais, carregadores, operadores de transporte multimodais e outros), com actividade em vários países na região do Mediterrâneo e no Médio Oriente.
Que projectos destaca nestes mais de cinco anos de actividade da Circle?
A combinação dessas três componentes que falei anteriormente tem sido usada em vários projectos nacionais e internacionais nos últimos cinco anos.
Um desses casos de sucesso diz respeito à cooperação com a Alfândega Italiana no desenho e colocação em prática dos chamados ‘fast customs corridors‘. O conceito implicou, inicialmente, uma revisão completa dos procedimentos aduaneiros, seguido da sua simplificação e transformação digital. Isto, claro, apoiado por um procedimento legal que está agora em vigor na Itália. Para bens importados, permite o desembaraço aduaneiro no destino final, desde que determinadas condições sejam cumpridas nos portos e na cadeia multimodal até esse destino final. Todo o processo é controlado de forma digital e monitorizado, interligando os sistemas de TI dos actores logísticos – desde portos, terminais, operadores rodoviários e ferroviários – e a National Single Window italiana.
Este processo permite aos grandes carregadores a completa monitorização da sua cadeia logística, poupando tempo e dinheiro, nomeadamente através de uma menor perda de tempo em porto, e tudo isto com um elevado nível de segurança. Foi com a IKEA que demos o pontapé de saída deste novo procedimento que é hoje amplamente utilizado em Itália e será brevemente alargado a cooperações transfronteiriças dentro da UE.
Para além deste, temos outros projectos que são casos de sucesso relacionados com extensões das funções dos “Port Community System” com uma prospectiva de corredor, a completa automação das gates rodoviárias e ferroviárias nos portos e terminais, o desenvolvimento de “Terminal Operating Systems” inovadores, operações inteligentes de carga e descarga em terminais e outras iniciativas relacionadas com a integração entre diferentes modos de transporte.

E em Portugal, a Circle tem já algum projecto que mereça destaque?
Entre os anos 2012 e 2015 trabalhámos em vários projectos europeus de Autoestradas do Mar (MIELE, WIDERMOS, ANNA), em conjunto com as Administrações do Porto de Lisboa e do Porto de Leixões. Os projectos tinham como foco a integração dos sistemas de TI entre actores da cadeia logística e o apoio à implementação da Directiva 65 da UE.
Depois, em 2015 começámos também a apoiar o desenvolvimento da Via Navegável do Douro, com a APDL, com foco particular na implementação de novíssimos “River Information Services”.
Na Primavera, vamos organizar um workshop em Portugal, no qual os participantes serão profissionais vindos dos portos e empresas logísticas, desafiados a apresentar as suas ideias e requisitos para criar o Porto do Futuro, com foco específico na digitalização – um campo em que Portugal está bastante avançado.
Estamos a ouvir falar cada vez mais em digitalização e tecnologias disruptivas neste sector. É o momento da indústria 4.0 assumir o papel de destaque?
A disrupção tecnológica é já hoje uma realidade, temos muitos grandes players – como a Maersk, a Hapag-Lloyd e os portos de Roterdão ou Antuérpia – já a trabalhar em soluções globais nas quais estão a abraçar a era da digitalização, oferecendo a oportunidade de reduzir custos na ordem dos 30% através de uma melhor coordenação da interacção entre os navios e terra, colectando mais dados em tempo real e oferecendo novos serviços com uma abordagem de análise preditiva.
Neste contexto, o paradigma da indústria 4.0 é também uma realidade. Um dos nossos casos de sucesso é um exemplo perfeito da combinação da logística da indústria e da logística de transportes onde o mesmo objecto de IoT (uma etiqueta de RFID) é utilizado para gerir a logística da indústria e a produção de carros, mas, ao mesmo tempo, é uma etiqueta reconhecida nas portarias portuárias que acciona procedimentos aduaneiros simplificados e digitalizados.
Como é que vê o Porto do Futuro?
Vejo um porto com zero-emissões, totalmente responsável e sustentável, perfeitamente conectado com as áreas urbanas nas suas redondezas e, obviamente, totalmente digitalizado. Mas estes são apenas alguns conceitos. Nós estamos actualmente a liderar um projecto chamado “DocksTheFuture”, sob a égide da iniciativa da DG MOVE “Port of the Future”, onde vamos, nos próximos três anos, envolver um grande número de especialistas e todas as partes interessadas dos sectores marítimos e logísticos na definição da visão do Porto do Futuro, de um conjunto de indicadores de desempenho, que deverão ser atendidos em 2030 e 2050, e num roteiro para a Comissão Europeia apoiar os portos de forma a que estes alcancem essa visão.
Dentro das várias disrupções tecnológicas que falámos, qual acredita vir a ter um maior impacto neste sector? Big Data? Automação? Blockchain? Outros?
São tecnologias que estão em níveis de desenvolvimento diferentes. O Blockchain, por exemplo, é o tema mais quente em todas as áreas. Na logística, tem um grande potencial uma vez que pode combinar os fluxos físicos e documentais dos bens com contratos inteligentes e as respectivas transacções sem intermediários e seguras, levando a uma simplificação disruptiva. Contudo, a tecnologia Blockchain exige novos modelos de negócio e um novo esquema de governação confiável. E este é o ponto chave que pode tornar uma arquitectura inteligente num sucesso ou num fracasso!
Por outro lado, o potencial da análise Big Data ainda está amplamente subestimado. No sector logístico existem ziliões de dados que podem ser transformados em conhecimento e valor. Nós estamos a trabalhar em módulos específicos para portos que, no âmbito das Janelas Únicas, normalmente tratam uma grande quantidade de dados muito valiosos.
Já a automação está já aí e tem provado trazer benefícios quando é inteligentemente combinada com a simplificação dos processos subjacentes.
Nesta transformação tecnológica e digital, os vários modos deverão estar todos ao mesmo nível de desenvolvimento?
Sim. O conceito de internet física deve estar suportado numa abordagem multimodal, na qual os diferentes operadores de transporte multimodal e os nós logísticos cooperam, usando o mesmo conjunto de tecnologias. Porém, actualmente nem todos os modos estão ao mesmo nível de desenvolvimento. Por exemplo, por diversas razões o sector ferroviário está ainda menos desenvolvido nalgumas áreas da automação. Ainda há muito trabalho a ser feito para integrar a informação ferroviária no conjunto da informação logística, especialmente em terminais ferroviários portuários e em portos secos.
Já falámos das vantagens destas novas tecnologias, mas temos novos desafios como a ciber-segurança. Está o sector preparado para proteger os seus sistemas e informação?
O recente ciber-ataque que afectou a Maersk mostra que não está. Por outro lado, a forma como se devem proteger os sistemas interconectados globalmente ainda tem o seu caminho a percorrer. É um tema chave que também estamos a tratar no nosso projecto do Porto do Futuro.



