IP linha do norte rede ferroviário

«Coluna vertebral da rede ferroviária portuguesa ficou 20 anos sem investimentos globais»

Terrestre Comentários fechados em «Coluna vertebral da rede ferroviária portuguesa ficou 20 anos sem investimentos globais» 351
Tempo de Leitura: 3 minutos

Em declarações ao ‘Jornal Económico’, Francisco Furtado, especialista em Transportes e analista no Fórum Internacional do Transporte (ITF), frisou que o comboio português pode e deve ir cada vez mais longe, mas que, para tal, é necessário haver «vontade política» e uma aposta na quebra do ciclo de duas décadas de desinvestimento. Actualmente, a rede do país sofre as consequências de um passado feito de «decisões erráticas» na ferrovia.

A ferrovia é, consensualmente, tida como o meio de transporte mais ecológico e sustentável – então, em tempos de consciencialização global da problemática do aquecimento global, o que falta para que este meio de transporte ganha maior relevo? «A vontade política é sem dúvida uma condição indispensável», considerou Francisco Furtado, em declarações ao ‘Jornal Económico’, lembrando que «Portugal é o único país da União Europeia onde existem mais quilómetros de autoestrada do que linhas de caminho-de-ferro».

«Lisboa e Porto são a segunda e terceira áreas metropolitanas da Europa com maior densidade de auto-estradas. Isto não aconteceu por acaso, é fruto de decisões políticas e da estratégia de reconversão industrial delineada no final da década de 80, aquando da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia», explicou Francisco Furtado, alertando para o facto de «decisões erráticas» terem «graves consequências que se manifestam por largos anos». O especialista lembrou o caso da Linha do Norte, típico de um projecto que ficou por completar.

«As tarefas de modernização e manutenção pesada na Linha do Norte, iniciadas na década de 1990, ficaram incompletas porque, antes de se concluírem as obras em todos os troços, foi tomada a decisão de investir na alta velocidade. Tal nunca veio a acontecer, o que provavelmente até foi positivo para o desenvolvimento global da ferrovia portuguesa, mas, entretanto, nem a linha existente foi completamente renovada nem foi construída uma nova», explicitou Francisco Furtado, apontado também ao sistémico desinvestimento dos últimos tempos.

«A coluna vertebral da rede ferroviária portuguesa ficou assim quase 20 anos sem investimentos globais e estruturais de significado qualitativo, com o material circulante adquirido nos anos 90 (Alfa Pendular) ainda hoje incapaz de atingir a sua máxima performance (220 km/hora) em vários dos troços da linha. O caminho de ferro requer estabilidade na prossecução de objectivos ao longo de horizontes temporais alargados que, necessariamente, atravessam várias legislaturas. O retorno do investimento, nomeadamente em infra-estrutura, requer um período longo, medido em décadas. A conclusão e prossecução desses investimentos exigem estabilidade e um compromisso de longo prazo», argumentou.

O debate em torno da ferrovia não deverá embarcar em visões extremistas ou dilemas de actuação, deve-se sim, defendeu, pautar pela «discussão produtiva». «A ferrovia já é estratégica. Basta pensar no que aconteceria se durante um mês não houvesse qualquer ligação ferroviária no país, nomeadamente nas áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. Cerca de 90% dos contentores que saem para terra do Porto de Sines são transportados pela ferrovia, as minas de Neves Corvo escoam a sua produção por comboio e muitas importantes indústrias recorrem ao caminho-de-ferro».

A questão não é se a ferrovia é estratégica, mas como potenciar ao máximo a sua contribuição para o desenvolvimento económico e social do país, revitalizar o sector e garantir a sua sustentabilidade financeira», rematou o autor da obra ‘A ferrovia em Portugal: Passado, presente e futuro‘.

Com ‘Jornal Económico’

Author

Back to Top

© 2020 Magia Azul, all rights reserved.
Partilhar
Partilhar
pt Português
X
WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com