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António Beirão (Consórcio MAIS): «Pensamos de manhã à noite em ter o cargueiro cheio»

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O Consórcio MAIS (Madeira Integrated Solutions), composto pela ALS, Swiftair e Loginsular, iniciou há poucos meses a operação de um cargueiro que liga a Madeira a Lisboa. Em entrevista à Revista Cargo, António Beirão fala dos desafios mas também de uma enorme ambição. Um avião de maior capacidade e os Açores são objectivos! Fique com a primeira parte da entrevista:

Como nasceu o Consórcio MAIS (Ma­deira Integrated Solutions), composto pela ALS, Swiftair e Loginsular?

Eu sempre acreditei que sozinhos não conseguimos chegar muito longe. Há que trabalhar em equipa e isso não sig­nifica apenas trabalhar dentro de cada empresa. Passa também por trabalhar em equipa nos mercados, com os nos­sos parceiros, com os nossos clientes, com os nossos fornecedores… E é com base nessa linha condutora que nasce este consórcio.

A ALS sozinha, como broker da avia­ção, nunca teria conseguido colocar este avião no ar. Procurámos parcerias para o fazer, em primeira instância com uma companhia aérea. E a companhia que se juntou a nós, a Swiftair, avançou connosco na própria exploração do avião, mitigando assim o nosso risco e concedendo o aval ao projecto. Isto porque uma coisa é ter um avião pago à hora e ter a obrigação de o colocar no ar e de, sozinho, fazer dele um projecto rentável. Outra coisa bem diferente é estar a própria companhia envolvida na exploração, numa partilha de responsa­bilidade perante o mercado e dando a garantia que teremos aqui um serviço para muitos anos.

Em segundo, também conseguimos a parceria de um agente local através da Loginsular. É um parceiro que conhece bem o mercado da Madeira e com expe­riência no sector da logística, um parcei­ro que acrescenta esse conhecimento e ainda entende os desafios da economia regional melhor que nós, tendo para além disso uma forte vertente comercial. A Loginsular já era um operador com um conjunto alargado de operações na Madeira, com uma das maiores frotas de camiões naquele mercado. E eles viram aqui uma oportunidade de alargar os seus serviços logísticos, elegendo o avião como um meio.

Só estas parcerias permitiram avançar com o projecto.

Como foi recebida na Madeira a ideia de iniciar a operação do cargueiro a ligar o Funchal e Lisboa?

Devo dizer que, desde o início, sen­timos todo o apoio das entidades da Madeira, quer privadas quer institucio­nais. Falo de apoio no sentido de nos incentivarem a arrancar com o projecto e de nos tentarem facilitar o mesmo. Isto porque, nos dias de hoje, colocar uma aeronave a voar não é fácil. Os aeroportos estão sobrelotados, as au­to-estradas aéreas também têm restri­ções… Só graças a todas as entidades envolvidas, conseguimos dar luz a este projecto.

Falou de vários tipos de apoio mas não de apoios financeiros…

Teria sido bom ter esse apoio também, porque ajudaria a reforçar economica­mente o projecto. Mas sabemos que hoje em dia é impossível obter esse tipo de apoio. Por isso, o que procurámos foi apoio institucional. E temos mantido um contacto muito próximo junto das entidades institucionais, as quais vamos informando sobre como vai correndo a operação. Percebemos que é estrutu­rante para a própria economia regional a existência deste serviço, e acredito que eles também o entendem muito bem. E nada melhor para quem está no po­der do que ter um privado que por sua conta risco, com uma iniciativa destas, disponibilizando importantes meios e recursos para o desenvolvimento da economia regional.

Para esta ligação entre Lisboa e o Fun­chal, iniciada há pouco tempo, que opor­tunidades foram identificadas?

O mercado estava num período de estabilidade, de marasmo. A capaci­dade disponível de transporte aéreo entre o continente e a Madeira não aumentou nos últimos anos, tendo mesmo diminuído. Ora, não havendo oferta, a procura foi asfixiada, não se dando o desenvolvimento que se esperava nesta área da carga. Se olharmos para os dados dos últimos anos, veremos que houve um decréscimo nos volumes de carga transportados por modo aéreo entre o continente e o Funchal, o que só se justifica com o facto da oferta ter reduzido e a procura estar asfixiada.

Portanto, o nosso estudo de mercado foi feito com base na abertura do mer­cado, na criação de maior capacidade, porque estamos cientes que a procura existirá se houver essa capacidade disponível.

Que oferta diferenciada terá a MAIS face à anteriormente existente?

Por exemplo, estamos a preparar a criação de produtos específicos que serão lançados a cada mês. Produtos premium, produtos expresso, produtos dedicados a determinados mercados… Temos pensado lançar um produto para os estudantes universitários, que permi­tirá colocar as suas bagagens no nosso avião, visto que neste regresso às aulas é muito complicado e caro colocar es­sas bagagens pesadas em aviões de passageiros. Serão formas de contribuir para que a procura cresça.

Temos o exemplo daquilo que se pas­sou em Espanha, com as Baleares e as Canárias. À medida que a capacidade foi aumentando, a procura também au­mentou.

Depois, estamos também focados na qualidade do serviço. Como metemos no ar um avião cargueiro, pensamos de manhã à noite em ter o cargueiro cheio, em cumprir horários, em servir bem os clientes, em reduzir os tempos de trânsito, em reduzir os tempos de entrega da documentação, em reduzir os tempos de entrega da mercadoria… Vivemos focados nisto, algo que noutras companhias não acontece porque têm outro tipo de pressões.

Estamos prontos para tudo, temos duas tripulações. Temos em Lisboa uma segunda tripulação e um avião de menor dimensão que, a curto prazo, nos pode permitir fazer algum voo charter caso exista procura para isso. Temos o voo regular mas estamos abertos a outras opções ocasionais.

Sente que do lado da TAP a entrada da MAIS no mercado pode ser vista como uma ‘ameaça’?

Não, não é visto como uma ameaça, até porque nós temos uma dimensão muito pequena. Queremos apenas acrescentar valor à economia, dinamizar o mercado. A TAP tem o seu caminho e nós queremos traçar o nosso. E acre­dito que no futuro poderemos ter uma colaboração mais próxima, até porque a direcção de carga da TAP tem uma grande visão estratégica do mercado. Essa oportunidade ainda não surgiu, o nosso avião também só voa há uns dias… Mas acredito que a curto prazo nos podemos sentar à mesa.

Que grandes vantagens traz este car­gueiro para os clientes, nomeadamente na comparação com o modo marítimo?

Este serviço também complementa, de certa forma, os serviços marítimos que ligam hoje Portugal continental e a Madeira. Mas nós sabemos que grande parte da pressão nas trocas comerciais é colocada na cadeia logística e na cadeia de transporte. Muitos clientes tiveram que adaptar as suas ofertas aos serviços que tinham disponíveis. Tendo apenas o serviço marítimo, tiveram de se adaptar a ele. Mas a nossa capacidade são oito toneladas/dia, o que não é nada para o transporte marítimo. A capacidade total do avião por semana é a equivalente a dois contentores de 20 pés . Mas as trocas comerciais, por via marítima, entre a Madeira e o continente são de umas centenas de toneladas por semana. Ao transporte marítimo não aflige a nossa oferta. Mas aos clientes permite grandes vantagens, nomeadamente para cargas urgentes. E essas existem todos os dias.

E aqui é importante frisar a importância do agente transitário, com o qual não queremos concorrer. Ele é, isso sim, o nosso principal cliente! Queremos cola­borar com eles para que eles criem os seus produtos e acrescentem valor aos produtos dos seus clientes. Não estamos aqui para ir bater à porta dos exporta­dores e dos importadores, estamos para gerir um avião. Esperamos que os agen­tes transitários possam aproveitar essa oportunidade para acrescentar valor.

Também parecem apostados em miti­gar os custos e fala-se em 1 euro por quilo transportado. É esse o preço para colocar carga neste cargueiro?

Falou-se nesse valor mas é um preço médio. Como é óbvio, um cliente com grandes quantidades pode até pagar menos que isso. Mas um cliente que nos chegue com uma carga peque­na, como é óbvio pagará mais do que isso. E também é diferente o custo do continente para o Funchal do custo do Funchal para o continente. A partir do Funchal, o preço é mais baixo. Mas, na média final, o preço não anda muito longe desse valor de 1 euro por quilo transportado.

Como funciona o cargueiro ao nível de frequência e de horários?

Foi tudo definido com base nos inpu­ts do mercado, fomos saber o que o mercado procurava. Percebemos, por exemplo, que ao domingo não há produção, pelo que um voo a uma segun­da-feira a sair às 6h da manhã voaria vazio. Por isso, voamos apenas a partir de terça, saindo de Lisboa às 6h da manhã e levando os produtos de se­gunda. Chegamos à Madeira por volta das 8:30h, o que nos permite ter carga liberta para o cliente às 8:45h. E isto é extraordinário porque permite captar certos mercados como a imprensa, pro­dutos frescos para vender no próprio dia… O serviço prolonga-se de terça até sábado, porque nos pediram que no sábado de manhã fizéssemos a ligação para os clientes que ainda produzem na sexta-feira. Já na viagem de regresso, a saída é às 14:00h, dando tempo para que o pescado passe pela lota e possa estar no aeroporto a horas. No regresso, chegamos a Lisboa às 16:00h.

De notar que a operação arrancou no mês de Agosto, um mês extremamen­te complicado no aeroporto de Lisboa dada a elevada procura. Felizmente, conjugou-se um conjunto de vontades para tornar possível esta operação. E por isso digo que os stakeholders do aeroporto de Lisboa também foram muito importantes para que a operação fosse possível, pois tiveram a capacidade de entender que este projecto é um pro­jecto para durar. Ainda temos algumas limitações, por exemplo o horário de regresso não é o que ambicionávamos. Mas é algo que esperamos ver muda­do quando terminar este período mais agitado.

A taxa de ocupação tem sido equilibrada entre os voos de ida e os de regresso?

Infelizmente não, ainda há um grande desequilíbrio entre a ida e a volta. Na viagem do Funchal para Lisboa temos trazido pouca carga, abaixo do que esperávamos. Mas sabemos que têm existido constragimentos ao nível da pesca, o que tem afectado o preen­chimento do voo de regresso porque o peixe é uma das cargas que mais potencial tem nessa ligação. Temos tido uma procura nessa viagem de regresso que fica entre 15% a 20% aquém daquilo que esperávamos. Mas é uma questão de tempo.

Que outro tipo de produtos tem sido atraído por este cargueiro?

No serviço Lisboa-Funchal, os nos­sos clientes estão bem identificados. São as companhias ‘courier’ que têm compromissos com os seus clientes, seja no sector farmacêutico ou no sector automóvel, para além de todo o sector da imprensa… São clientes que têm aqui uma solução dedicada. E vamos avançar com um serviço para colocar os produtos no destino final caso o agente nos peça.

Já na ligação entre o Funchal e Lisboa, o principal produto é o pescado mas também os produtos agrícolas e outros tipos de produtos que não se dão bem dentro de um contentor. Temos noção que muitos deles são produtos sazonais, daí que existam procuras diferenciadas ao longo do ano.

E devo dizer que temos uma grande expectativa em relação ao desenvolvi­mento da aquacultura na Madeira, há projectos muito interessantes e que pro­metem fazer crescer de forma acentua­da a produção de peixe. Acredito que quando começar a funcionar em pleno, o avião que temos vai tornar-se peque­no. Mas vamos esperar seis meses, o peixe está a crescer. Entretanto, vamos ganhando experiência. As coisas não se fazem de um dia para o outro.

Esta entrevista é parte integrante da Revista Cargo número 268, de Julho/Agosto de 2017.

 

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