COVID-19 e os desafios ao sector logístico: Revista Cargo entrevistou António Nabo Martins

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A civilização atravessa uma das mais árduas ameaças à sua integridade e essência: um inimigo invisível que se propaga velozmente e que enfraquece os povos, desde o sistema imunitário de cada um até às estruturas económicas e societárias que dão corpo aos regimes. O contágio é transversal e torna-se ainda mais virulento na fase mais elaborada e avançada da globalização – para analisar os desafios que o COVID-19 traz ao sector logístico e quais as estratégicas mais pertinentes para mitigar os seus efeitos nocivos nas cadeias logísticas e na economia, a Revista Cargo entrevistou António Nabo Martins, presidente executivo da APAT (Associação de Transitários de Portugal).

Revista Cargo: O mundo atravessa uma pandemia que está a colocar à prova não apenas as capacidades dos sistemas de saúde dos países afectados como também as capacidades e limites do sector logístico – serão estas as duas forças de actuação que, em sintonia, acabarão por derrotar o COVID-19?

António Nabo Martins: A pergunta encerra em si mesma uma resposta complexa ou até de quase impossível resposta. Penso que devemos antes de mais perceber o que estamos a enfrentar. Depois perceber que nunca uma só pessoa, acção, entidade ou grupo profissional conseguirá vencer esta guerra. As duas forças que refere apenas poderão ajudar todas as outras a resolver um problema de enorme gravidade, nunca experienciado, nunca vivido e nunca visto. À data de hoje é perfeitamente perceptível que só juntos conseguiremos vencer, porque só juntos seremos mais fortes e só mais fortes seremos mais capazes. Isto é uma GUERRA. Ponto.

Se olharmos para a história, todos encontramos relatos de guerras perdidas por deficiências na área logística. Eu diria que a função logística deve ser considerada a segunda linha desta GUERRA e que deve apoiar incondicionalmente quem está na primeira linha, ou seja é função desta segunda linha fazer chegar, pessoas, bens, equipamentos e especialistas à linha da frente, sempre em segurança, para ajudar no combate.

Vejamos, o País não tem condições para produzir todo o ‘armamento’ para enfrentar esta GUERRA. Então temos de organizar a cadeia e o sistema logístico que fará chegar aos nossos ‘soldados’ (profissionais de saúde) tudo o que necessitam. É aqui, nesta fase, que a Actividade Transitária é fundamental pois são os Transitários que são especialistas em planificar e organizar as operações relativas ao transporte internacional de mercadorias, actividades logísticas complementares e sua distribuição.

A APAT entende que construção de uma solução logística pressupõe a eficiência da mesma, assente numa visão integrada e global, com vantagens acrescidas para o carregador/receptor e com reflexos no resultado final. O transitário deve apresentar aos Exportadores/Importadores condições que oferecem a garantia de quem sabe como deve operar nesses Países, com conhecimento específico das realidades próprias de cada espaço económico. Esta GUERRA só será vencida com a ajuda de todos.

Em Portugal já foi decretado o Estado de Emergência – em que aspecto pode tal estado dificultar os normais fluxos de abastecimento? É possível que as cadeias logísticas mantenham a sua normal efectividade?

Por incrível que pareça o Estado de Emergência veio aliviar os congestionamentos normais que sempre se verificam, pois menos carros maior rapidez de circulação. Por outro lado rapidamente se encontraram alternativas à circulação documental o que também veio obviar a desmaterialização dos processos, encontrando-se soluções que minimizaram riscos mas simultaneamente consentâneas com a necessidade de se cumprirem as normativos legais garantindo a fluidez da cadeia logística. Na realidade o que está a dificultar é a falta de encomendas e consumidores.

Nesta altura nada é normal. Tudo ficou diferente e nenhum dia é igual ao outro. Há que saber viver com Legislação que sai num dia à noite para o dia seguinte, muita informação e contra-informação e com as condições de funcionamento de fábricas, industria, serviços e entidades. Entendo que será até muito difícil prever se num futuro próximo vai ficar tudo ‘normal’ ou se após o regresso à normalidade as cadeias Logísticas e os players logísticos se alteram e teremos uma normalidade que seguramente não será esta. O que sabemos actualmente é que todos esperam que a actividade Transitária dê a resposta mais acertada a esta maior exigência e a APAT sabe que os seus associados estão prontos a enfrentar mais esta batalha com abnegação, resiliência, esforço, dedicação e muita esperança.

Numa altura de crise pandémica, as cadeias de abastecimento de bens essenciais tornam-se ainda mais vitais e urgentes: quão importante é priorizar operadores logísticos, transportadores e transitários na aprovação de medidas governamentais de apoio a esses players do sector?

Somos todos parte integrante do sistema logístico nacional e internacional e em alturas de guerra todos temos de perceber que o todo é mais importante que a soma das partes, mas é a soma de todos que permite tornar o todo naquilo que é fundamental, ou seja servir o País. Todos somos ‘soldados’ que têm de lutar para derrotar um inimigo desconhecido e invisível mas também implacável. É assim fácil entender que o tempo e o espaço são fundamentais para perceber de que forma devemos movimentar os equipamentos e as pessoas de forma a manter a luta, sempre bem equipados, encontrando formas de fornecer e manter capacidade de resposta sempre de forma imediata. Para que esta acção seja o mais eficaz e eficiente possível é necessário quem organize (Transitários), quem transporte (Transportadores) e quem gira stocks (Op. Logísticos). Ou seja para atingir um bem comum temos necessidade de funcionar em rede criando assim condições para que as probabilidades de vitória sobre um inimigo comum aumentem e seja uma inevitabilidade.

Fica assim claro da necessidade de apoiar incondicionalmente quem assegura os bens necessários onde eles são efectivamente necessários e na medida certa. Logo é entendimento da APAT que tem de se olhar para todos os players como fundamentais, pelo que é sempre importante pensar estrategicamente e não de uma forma acidental ou impensada. Na APAT temos bem a noção que a nossa missão é assim cada vez mais dura. As Guerras serão cada vez mais complexas e só vencendo batalha a batalha conseguiremos sair vencedores.

A APAT já deitou mãos à obra, elaborando um pacote de medidas que visam dar suporte a quem dá o suporte logístico ao país: as empresas de transitários e todos os players logísticos: quais os efeitos pretendidos com as medidas que a APAT levou ao Governo?

O objectivo da APAT não foi tanto reivindicar mas indicar algumas medidas, que num primeiro momento permitissem fazer chegar os bens e produtos de primeira necessidade a quem mais precisa deles. Depois permitir ou facilitar condições que devido a algumas daquelas medidas pudesse manter a economia a funcionar. Por ultimo, chamar a atenção para a necessidade de encontrar formas de manter empresas e postos de trabalhos de forma a que Portugal não “desmorone” por falta daquele que é o especialista da organização do trânsito internacional, com responsabilidade da operação logística, ou seja, aquele que na cadeia dos transportes é o elo fundamental e que coloca no preço, prazo e quantidade certa no lugar certo.

Quão urgente pensa a APAT ser a aceitação e aprovação, por parte do Executivo, destas medidas?

A urgência é para ontem. Algumas delas até já foram ou por via do Governo ou por via da União Europeia. Na APAT entendemos que o Governo terá de ir mais longe, nomeadamente na questão do Lay off simplificado em que defendemos a redução de 60 para 30 dias ou até de imediato, na questão das rendas, na questão da energia, na questão do acesso (facilidade e rapidez) aos apoios (dinheiro), etc. O mais urgente é injectar liquidez nas empresas para que estas não morram.

Para além destas medidas e numa perspectiva mais operacional temos vindo a inventariar alguns problemas identificados pelos nos associados que reportamos às diversas entidades com quem trabalhamos e que temos vindo a conseguir ultrapassar. É um trabalho mais silencioso, mas nesta altura queremos muito ajudar e acreditamos que o que estamos a fazer é o BEM e isso também nos faz acreditar que conseguiremos ultrapassar esta situação. Os Transitários têm bem a noção que são agentes económicos essenciais para as cadeias de abastecimento de bens e produtos que nunca podem falhar, pelo que esperamos, sinceramente, que depois de passada esta tormenta, vir a ter a agilização e facilitação de que tanto necessitamos para garantir eficácia e eficiência.

Há quem diga que esta crise global será o maior dos testes à capacidade e resiliência do sector: concorda?

De alguma forma sou tentado a concordar. Tal como já referi, entendo que depois desta crise tudo será diferente. A maneira como vamos passar a viver, passar a consumir, passar a vender e acima de tudo como perspectivamos o futuro que havemos de ter. Antes de hoje, esta questão era colocada atendendo à necessidade de acompanhar a revolução digital que estava a acontecer. Hoje a questão é colocada de como vamos estar quando esta situação terminar.

Eu sou um optimista por natureza e acredito que teremos tempo para voltar a encontrar clientes, parceiros, fornecedores e amigos. É muito previsível que a nossa economia sofra o tal tsunami que o Sr Primeiro Ministro referiu, mas também é verdade que com o espírito dos Portugueses saberemos enfrentar esses momentos e, esses momentos passarão muito pelo negócio internacional e é aqui que nos sentimos em casa. Seguramente que vamos voltar a sentir e vibrar, com os sucessos, os insucessos, com os negócios, faça chuva ou faça sol e teremos tempo para voltar a fazer a carga navegar, voar e circular para que chegue à casa de todos os Portugueses nas melhores condições. Sabe de certeza que tudo o que chega às ilhas e tudo o que passa (a fronteira) passa com um Transitário.

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