gas natural bomba

Nuno Afonso Moreira (Dourogás GNV): «Gás Natural é o combustível do presente»

Empresas, Entrevistas, Terrestre Comentários fechados em Nuno Afonso Moreira (Dourogás GNV): «Gás Natural é o combustível do presente» 1498
Tempo de Leitura: 8 minutos

Embora se veja um mercado do gás natural veicular mais dinâmico do que nunca, ainda existem passos importantes por dar em Portugal. Em declarações à Revista Cargo, o Presidente Executivo da Dourogás GNV, Nuno Afonso Moreira, enumera o vasto leque de vantagens do gás natural mas admite que há ainda um caminho a percorrer, nomeadamente em matéria de incentivos.



Revista Cargo: Como tem visto a evolução do mercado do gás natural veicular, quer em Portugal quer a nível internacional?

O gás natural veicular é tipicamente um negócio B2B, ou seja, prioritariamente vocacionado para o segmento do transporte profissional em três segmentos de mercado: transporte de mercadorias, recolha de resíduos sólidos urbanos e transporte publico de passageiros.

O segmento do transporte de mercadorias e da logística tem evoluído de forma consistente e em linha com a tendência europeia. Actualmente o nível de penetração de viaturas pesadas movidas a gás natural é ainda inferior a 1% do parque de veículos pesados matriculados no território nacional, mas este é claramente um sector em early stage, o que significa que temos hoje taxas de crescimento muito expressivas , acima dos 20% anuais, quando comparada a evolução registada nos últimos 3 ou 4 anos. Estamos convictamente convencidos que Portugal e a Península Ibérica poderão, no curto prazo, ser uma caso de sucesso exemplificativo a nível europeu.

Considerando os estudos que a nível internacional vão validando as políticas dos Governos centrais, existe hoje uma expectativa clara que dentro de poucos anos 10% das viaturas pesadas que circulam nas estradas europeias, possam ser movidas por combustíveis alternativos, e neste contexto, a maturidade tecnológica, a relação custo/benefício e a viabilidade operacional que é exigida, apontam claramente para o gás natural como solução consensual enquanto combustível de transição. É um logro pensar-se que nos próximos 5 ou 10 anos uma viatura de 40 toneladas de peso bruto possa, por exemplo, fazer o percurso Lisboa-Madrid com uma bateria de lítio compatível com autonomias que permitam validar a dita viabilidade operacional. Se pensarmos que hoje em dia são registadas anualmente cerca de 3,5 milhões de passagens transfronteiriças nos dois sentidos entre Portugal e Espanha e que Espanha é de há longa data o principal parceiro comercial do nosso país, então só poderemos ter uma expectativa francamente optimista no que respeita à evolução do parque de viaturas movidas a gás natural no transporte de mercadorias à escala nacional e ibérica.

À escala europeia, existe hoje já uma substancial penetração deste tipo de viaturas. Segundo dados oficiais, estamos a falar num valor superior a 1,3 milhões de viaturas, prevendo-se que em 2030, 20% nas vendas de novas viaturas sejam movidas a gás natural.

Sem sobranceria, podemos hoje dizer que o gás natural é o combustível dos profissionais, e se há uns anos o sector falava no ‘combustível do futuro’, hoje não temos dúvidas em afirmar que estamos a falar do ‘combustível do presente’.

Qual a abrangência actual da rede de abastecimento de veículos a gás natural da Dourogás, em particular de veículos comerciais pesados?

O Grupo Dourogás tem uma missão clara no negócio da mobilidade sustentável: estarmos presentes onde o mercado reclamar a nossa presença. Equivale isto a dizer que não obstante os planos de investimento que neste momento temos relativamente claros no nosso plano de prioridades, estaremos sempre na linha da frente para acompanhar as dinâmicas do mercado e os requisitos de mobilidade dos nossos clientes.

Actualmente, com os postos existentes: Elvas, Carregado e Picoto (estes três combinando a tecnologia de GNC – Gás Natural Comprimido e GNL – Gás Natural Líquido) e Santo António dos Cavaleiros, Vila Real e Mirandela (estes três últimos apenas com tecnologia GNC), cobrimos os principais eixos rodoviários do transporte de mercadorias e damos resposta a um número já substancial de operações de transporte público de passageiros e de recolha e tratamento de resíduos sólidos urbanos (RSU), dois sectores onde a dimensão económica e a dimensão ambiental têm vindo a demonstrar substancial adesão ao Gás Natural.

Em termos objectivos, a nossa estratégia passa claramente por promover a utilização do Gás Natural líquido (GNL) a par do Gás Natural Comprimido (GNC) em postos de abastecimento localizados nos principais eixos rodoviários com maior tráfego de viaturas pesadas de mercadorias. Para 2018 temos prevista a abertura de 4 novos pontos de abastecimento em Portugal, sobretudo em geografias onde notamos algum défice de cobertura, e vamos ainda apostar no mercado espanhol que neste momento tem já um peso simpático no nosso negócio doméstico, com a abertura de um Posto de GNL/GNC. Queremos continuar no trilho dos nossos clientes e do mercado transportador. Acreditamos nas parcerias de longo prazo e é por esse caminho que queremos continuar a conduzir a nossa estratégia de crescimento sustentado.

Quais os principais benefícios da utilização do gás natural para a mobilidade, em comparação com os combustíveis tradicionais?

É vastíssimo o acervo de benefícios. Seria um lugar comum não começar pelas vantagens ambientais e pelos próprios impactos ao nível da saúde pública. Com efeito, a característica mais conhecida dos veículos a gás natural, é serem amigos do ambiente, pois o contributo para a redução das emissões poluentes é notório: -35% de óxidos de nitrogénio, -20 a 25% de dióxido carbono, eliminação das emissões de dióxidos de enxofre e -95% de partículas poluentes. Se pensarmos que o transporte rodoviário é responsável por cerca de 1/3 das emissões de passivos ambientais da União Europeia e que anualmente, segundo a Organização Mundial de Saúde, morrem em todo o mundo cerca de 6,5 milhões de pessoas devido às várias formas de poluição atmosférica, então o gás natural é definitivamente um combustível versátil, seguro e que simultaneamente é mais amigo do ambiente.

Também na vertente económica, o gás natural é uma alternativa rentável sobretudo no transporte profissional, onde a redução de custos de combustível face ao diesel pode facilmente atingir os 40%.

Em suma, existe hoje um reconhecimento consensual por parte do mercado que o gás natural é, não só, do ponto de vista ambiental um combustível mais ecológico e gerador de uma menor pegada de carbono, como, acima de tudo, permite uma contenção de custos de combustível na ordem dos 30% a 40%, o que, na actual arquitectura de mercado, permite às empresas do sector do transporte e logística, não só recuperar o sobre-custo das viaturas, como subtrair ganhos financeiros mês a mês em termos de custo de combustível, para além do dividendo reputacional inerente à utilização de um combustível mais amigo do ambiente.

No futuro, vê a mobilidade eléctrica como o grande obstáculo à evolução do gás natural como solução sustentável?

A mobilidade eléctrica ocupa um espaço de posicionamento diferente face aos veículos a gás natural. Vemos o futuro, no curto e médio prazo, numa lógica de segmentação e complementaridade. Por um lado o gás natural, mais vocacionado para o transporte de longo curso, quer de mercadorias e carga geral, quer de passageiros, quer também no desenho de operações específicas como é op caso da recolha e tratamento de RSU´s. O veículo eléctrico, no actual estado da arte da tecnologia, e seguramente nos próximos anos, estará sobretudo vocacionado para uma mobilidade mais inter-urbana e em redor dos pontos de carregamento, cuja capilaridade é ainda incipiente no mercado.

Que grandes obstáculos enfrenta hoje o gás natural veicular que estão a impossibilitar uma maior adesão em Portugal?

Camiao gas natural santos e valePor um lado, em Portugal a falta de incentivos, a exemplo do que existe em Espanha, com a moldura regulamentar do Plano Movalt, o qual financia à cabeça, não só os veículos a gás natural, como todos os restantes meios de transporte mais ecológicos.

Por outro lado, até aqui a cobertura de pontos de abastecimento de GNC e GNL era ainda manifestamente reduzida, face às necessidades do mercado ibérico, o qual incontornavelmente tem de ser encarado como um todo, atenta a sua elevada inter-relação.

Neste quadro, o Projecto ibérico do Consórcio ECO-GATE do qual o Grupo Dourogás é parte integrante, vai permitir, no espaço de dois anos, dar uma resposta holística ao mercado: maior número de pontos de abastecimento de GNL e GNC, desenvolvimento de inovações tecnológicas que permitam atenuar custos operacionais e maximizar eficiências tecnológicas, e suporte à procura, por via de incentivos que cobrem parcialmente o sobre-custo, mormente das viaturas pesadas.

Registamos igualmente com muitíssimo agrado e expectativa a recente iniciativa legislativa no sentido de reduzir a carga fiscal do ISP dos combustíveis menos poluentes como o gás natural. Trata-se de uma elementar medida de justiça que, vem de alguma forma repor competitividade ibérica no GNL e GNC, a exemplo do que havia já sucedido com o chamado gasóleo profissional.



Author

Back to Top

© 2020 Magia Azul, all rights reserved.
Partilhar
Partilhar
pt Português
X
WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com