«O valor acrescentado do projecto de Sines está sobretudo no hinterland» – Jorge d’Almeida (CPSI)

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O Presidente da Comunidade Portuária de Sines, Jorge d’Almeida, foi entrevistado pela Revista Cargo para a edição de Julho/Agosto. Fique com a segunda parte da entrevista (Leia aqui a primeira parte).

REVISTA CARGO: O ano de 2017 marca o 40.º aniversario do porto de Sines. Conhecendo este Por­to como poucos, pergunto-lhe como tem visto a evolução de Sines nestes anos?

jorge d'almeida cpsi sinesJORGE D’ALMEIDA: A verdade é que o porto de Sines é um porto incrivelmente jovem quando comparamos com outros portos globais. O meu interesse pelo porto de Sines e pelos contentores começou quando tra­balhava nos EUA, onde profissionalmente me cruzei com o homem que inventou o contentor: Malcom McLean. Foi ele que surgiu com a ideia de desenvolver o primeiro serviço global, algo totalmente inovador naquele tempo mas que hoje todas as empresas de navegação fa­zem: serviços com navios grandes que escalam alguns portos e depois navios mais pequenos que distribuem a carga por portos mais pequenos, o chamado transhipment. Eu estive envolvido nesse projecto como engenheiro, na equipa que projectou e depois dirigiu a construção dos navios na Coreia.

Nessa altura, Malcom McLean procu­rou portos por todo o mundo onde iria desenvolver este tipo de serviço, um ser­viço que dava a volta ao mundo numa só direcção: Oeste para Leste. E porquê? Porque no Pacífico existia muito mais carga da Ásia para os Estados Unidos, no Atlântico havia muito mais carga dos EUA para a Europa, e não havia muita carga da Europa para a Ásia. Os navios passavam o Canal do Suez para se po­sicionarem de novo nos portos asiáticos.

Foi nesse contexto que sugeri Sines, porque senti que estava na geografia ideal. Com Sines, os navios não teriam de ir a Roterdão ou outros portos do Norte da Europa. O Sr. McLean enviou um con­sultor a Portugal, o qual eu acompanhei. Quando chegou cá, fez duas perguntas: «Que carga existe aqui em Sines?». E não havia nada de contentores. «E que ligações tem para os pontos onde há carga em Portugal ou Espanha?». Só tínhamos a estrada nacional… «Quando tiverem uma auto-estrada que ligue a Sines e uma ferrovia, aí Sines será um porto potencialmente muito interessan­te», concluiu. Estamos a falar de 1980, e a verdade é que há ainda coisas por fazer.

Esse serviço arrancou, obviamente sem Sines. Os navios vinham de Roterdão e depois seguiam para o Mediterrâneo e depois para o Canal do Suez. Perdeu­-se logo aí uma excelente oportunidade para Sines.

Quando entra então Sines novamente nas contas?

Só 20 anos depois surgiu uma segun­da tentativa de vender Sines. Foi um trabalho feito pela Administração da altura e pelo Governo do Eng.º António Guterres, os quais enviaram um convi­te a todas as empresas potencialmente interessadas no porto de Sines, tanto operadores portuários como armadores. Havia uma condição essencial: todo o investimento teria de ser realizado pelo operador. E só apareceu uma interessa­da, a PSA. Esta, por razões estratégicas, decidiu agarrar o desafio, mesmo sem saber se seria um sucesso comercial ou não. Tinha a convicção de que a médio/ longo prazo era impossível Sines não se desenvolver. Mas a curto prazo não sabiam bem o que esperar. A aposta foi feita inicialmente num cais pequeno, com um investimento de 160 milhões de euros. E estiveram quase a desistir porque construíram o terminal, que foi inaugurado em Maio de 2003, mas não conseguiam clientes. Depois, também não conseguiam falar com a Administra­ção da CP, que se recusava a conversar com a PSA Sines por entender que Sines não tinha nada que ir buscar carga a Lisboa, que era só transbordo puro. Foi nessa fase que eu comecei a trabalhar com a PSA como consultor e tivemos a sorte de mudar o Governo. Com o novo Governo chegou nova Administração da CP que, como é habitual, faz o contrário da anterior. Resolveram olhar para Sines a sério e a verdade é que, actualmen­te, Sines é o maior terminal ferroviário de carga da Península Ibérica. Foi uma aposta vencedora para todas as partes. E foi isso que tornou possível a Sines começar a atrair carga de locais onde ela existe, no Centro e Norte do País.

E há também o factor MSC, certo?

Exacto, a MSC aceitou o desafio de apostar em Sines com o único serviço que tinham em Portugal, um serviço que escalava o porto de Lisboa que vivia mui­tas greves. Era um serviço costeiro e que não tinha vantagem nenhuma em ir para Sines. Mas a MSC percebeu que tinha ali um terminal com condições excepcionais para trazer serviços intercontinentais. E foi o que aconteceu. Sines começou a crescer quando a MSC decidiu trazer serviços que antes não passavam por Portugal, serviços que escalavam portos no sul do Mediterrâneo como Las Palmas, Valência ou Le Havre. Muitos serviços com a componente de transbordo vieram para Sines porque este demonstrou ter grandes vantagens para desenvolver esse tipo de negócio.

Depois, houve outro elemento muito importante também, ligado ao regime laboral. Na altura, os portos portugueses funcionavam todos sob o mesmo regi­me laboral. Era um contrato colectivo de trabalho muito pouco flexível, com o qual seria impossível desenvolver um negócio onde se concorre com portos internacionais. Felizmente encontramos um advogado excepcional, o Dr. Antonio Martinez, que foi o pai do regime laboral que existe em Sines – um regime que veio depois a ser adoptado no resto do País. Com este acordo, tem havido uma paz laboral importante e o Sindicato XXI tem tido inteligência de perceber as van­tagens que tem em ser parceiro portuário e não estar no papel de antagonista.

Que outros segredos estão por detrás do sucesso do Terminal XXI?

terminal xxi contentoresO modelo de desenvolvimento do Ter­minal XXI em Sines está alicerçado em vários pilares. O primeiro é servir o mer­cado português com serviços directos, algo que não era feito no País até surgir Sines. O porto de Sines teve condições para atrair navios maiores, fornecendo um serviço de transbordo competitivo, não só graças à estabilidade laboral mas também graças às facilidades que Sines tem a nível de acessibilidade marítima e todo o clima muito positivo de negócios envolvente.

E falta ainda outro pilar, que não foi feito mas tem condições para ser de­senvolvido: atrair negócios que sejam geradores de carga, que sejam centros de distribuição regional ou fábricas que aproveitem a localização perto de um porto para melhorar a sua competitivi­dade.

A Artlant foi um primeiro exemplo des­sa visão.

Aumentar o hinterland é também um de­safio para o porto de Sines, reduzindo assim o peso do transhipment?

Sem dúvida. O valor acrescentado do projecto de Sines está sobretudo no hinterland, mais do que o transhipment. O grande potencial está no desenvolvi­mento do hinterland e em potenciar o desenvolvimento de indústrias que não podem existir a não ser que exista esta vantagem competitiva que Sines oferece. Falo de indústrias globais, com serviços muito espalhados e em que a parte do transporte representa uma grande fatia dos seus custos. É o exemplo da indústria petroquímica, da indústria electrónica ou da indústria automóvel onde vemos a Autoeuropa a aumentar substancialmente a sua produção e onde Sines pode ser uma alternativa para entrada de com­ponentes que entram hoje por outros portos, alguns espanhóis.

Nesse aumento do hinterland, até onde pode chegar Sines?

O alvo mais óbvio, sobretudo numa primeira fase, é Madrid. É um mercado enorme e que está no centro da Penín­sula, pelo que tem de ser servido por portos a alguma distância. O porto mais próximo é Valência mas Valência tem algumas desvantagens para determina­das rotas nas quais se torna mais rápido chegar a Madrid por Sines do que por lá. Além disso, Valência é um porto muito desenvolvido e levanta alguns problemas de congestionamento.

O mercado de Madrid funciona com uma logística radial, estando ligado a vários portos. Mas a ligação a Sines está ainda muito anémica porque está dependente do serviço ferroviário dada a distância. A ligação existe, está a ser testada e a Medway já realizou alguns serviços Sines- Madrid. Mas é funda­mental ultrapassar os problemas estru­turais de ligação à fronteira. E isso está finalmente a ser feito, onde é apontada a data de conclusão da ligação Évora-Caia para 2020. É algo que vai ter um impacto muito positivo, não tenho duvidas.

Depois de chegar a Madrid numa pri­meira fase, há que ter ambição de ir até ao Centro da Europa. É muito possível ter a ambição de, em determinados trá­fegos, chegar por exemplo a Paris. Que também é Central e por isso tem de ser abastecido por portos através da ferro­via. Temos o exemplo da DB Schenker, que tem muita ligação ao mercado au­tomóvel mas que tem capacidade para alimentar muitos mais tipos de carga, sendo uma empresa que tem vindo a expandir a sua rede ferroviária para este lado da Europa. Mas, infelizmente, em Portugal não temos terminais ferroviários que possam prestar um serviço neces­sário para ter uma ligação eficiente a Espanha e ao resto da Europa. Só em Valladolid têm cinco serviços a sair para França e Norte da Europa! Parece-me que a Medway também está apostada em tirar partido desse potencial, e isso poderá ser importantíssimo para o nosso desenvolvimento. A MSC Portugal perce­beu muito rapidamente que existe uma grande vantagem em aliar o transporte rodoviário ao transporte marítimo.

Da Estratégia do Governo para o Aumen­to da Competitividade Portuária, ficou satisfeito com os planos para Sines?

segurança

O mundo vive em constante mudança mas o que é imutável é a posição que Sines tem hoje no mercado internacional. É um porto reconhecido por ser muito competitivo para determinadas rotas. E a verdade é que Sines já atingiu a sua capacidade máxima. Por isso, há clara­mente uma oportunidade para aumentar a sua capacidade. A PSA já pediu au­torização ao Governo para aumentar o Terminal XXI mas depois há uma área grande de expansão que permite pensar num novo terminal, o chamado Terminal Vasco da Gama.

Um segundo terminal, com um novo operador, traria maior competitividade a Sines?

Não me parece que em termos de concorrência seja importante. Estes terminais concorrem com terminais in­ternacionais, altamente competitivos. Eu diria que, pensando em estratégia nacional, deveria haver um único ope­rador portuário, isso tornaria Portugal bem mais competitivo. Mas não sei se é viável. Há interessados na entrada de outro operador portuário, pois há empre­sas que são elas próprias accionistas de operadores portuários. Portanto, um único operador poderá não ser a maneira mais eficiente de atrair carga.

Mas são os operadores que decidem onde querem fazer os seus hubs. O que sei é que Portugal é cada vez mais atraente pela sua carga e pelo poten­cial do hinterland até Madrid e também para o Centro da Europa.

Acredita que Sines continuará a crescer?

Sines não pode continuar a crescer enquanto o terminal não for aumentado, é impossível! Não há capacidade para crescer. Mas, instalando essa capacidade, não tenho duvidas que haverá a procura desejada. Ainda não é tarde demais mas teria sido melhor que essa expansão tivesse chegado mais cedo.

Sobre o futuro Terminal Vasco da Gama, quem lhe parece que possa ter interesse nesse terminal?

O ideal era que fosse a PSA, certa­mente terão interesse e possivelmente poderão avançar. Depois, acredito que qualquer grande operador poderá ter interesse. A CMA CGM, através do seu operador portuário, por exemplo. Embora não tenha ainda sido apontada, acredito que pode olhar para Sines como a MSC olhou. Depois temos a COSCO, que na teoria pode ter muito interesse e que já investiu na Grécia e mais recentemente em Valência. Se quiser seguir a MSC, poderá vir também para Sines. E por­que não os japoneses? Ainda não têm cá nada e operam neste mercado do Extremo Oriente para a Europa….

Em que outras áreas poderemos ver Sines a crescer?

A ferrovia é essencial para haver de­senvolvimento. Mas julgo que também é importante chamar a atenção para a ligação rodoviária, que tem também de ser melhorada. Neste momento, somos basicamente um porto de transhipment e de transporte ferroviário. Mas se quiser­mos ser um porto que atraia investimento logístico, temos de fazer mais.

Depois, vejo duas áreas de grande potencial para Sines. Uma é o abaste­cimento de gás natural aos navios, algo que também faz parte da Estratégia do Governo. A outra é o apoio logístico à exploração petrolífera.

LEIA A PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA CLICANDO AQUI!

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