Zeina Nazer: «Portugal deve procurar formas de estimular a economia e a mobilidade é a chave»

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Zeina Nazer é Secretária Geral da ITS Arab, com sede no Dubai, e uma verdadeira especialista em mobilidade e Sistemas Inteligentes de Transportes, contando já com uma experiência de mais de 20 anos neste sector em países árabes, Europa, Nova Zelândia ou Estados Unidos. No seu longo percurso profissional, destaque ainda para a distinção, em 2009, como “Mulher de Negócios do Ano”, um prémio atribuído no Dubai.

A convite da ADFERSIT, Zeina Nazer esteve recentemente em Portugal, concedendo a sua visão da mobilidade de pessoas e bens no futuro: uma mobilidade que no Dubai se prepara para incorporar muito em breve os comboios subterrâneos supersónicos (o famoso Hyperloop) ou táxis voadores!

Os veículos autónomos, a mobilidade como um serviço (MaaS) ou a mudança do paradigma energético nos transportes são alguns dos temas abordados nesta entrevista concedida, em exclusivo, à Revista Cargo. E no seu depoimento deixou também sugestões para o caminho a seguir por Portugal.

Revista Cargo: Que energias vê a assumir o futuro da mobilidade de pessoas e bens?

ZEINA NAZER: Os governos terão um papel relevante nesta questão. Por exemplo, a França proibirá já em 2040 todos os veículos a gasolina e gasóleo, apostando nos eléctricos. Em casos destes, não há outra opção e a mobilidade terá de ser eléctrica. Isto para dizer que quando o governo impõe regras agressivas, não há opção. Mas no caso em que os governos não estão envolvidos activamente e onde não existe um sector privado que fornece estações de carregamento eléctricas, não existe verdadeiramente a opção de seguir o caminho dos eléctricos. Por isso, se não forem os governos a forçar esse caminho, deve ser o sector privado.

Não há dúvida de que os veículos eléctricos são o futuro porque já se pode ver em muitas grandes cidades os efeitos da mobilidade a gasolina e gasóleo. Na minha opinião, os carros eléctricos serão o futuro.

Por outro lado, também o tema dos veículos autónomos deve estar em cima da mesa. Falo de veículos autónomos, sem condutor, veículos ligados a veículos e veículos ligados a infra-estruturas. E essa é outra área que deve ser liderada pelos governos. Porém, pessoalmente, não acredito que seja possível ter 100% de carros autónomos no futuro, acho que teremos um mix entre veículos autónomos e veículos com condutor.

O que a faz não acreditar nesse futuro apenas com veículos autónomos?

Eu acho que isso não é possível. Em primeiro lugar, porque existem pessoas e culturas diferentes, elementos diferentes, e todos eles devem ser tidos em consideração. Levará o seu tempo para que os veículos autónomos possam circular porque se tem de lutar contra algumas ideias pré-concebidas. Por exemplo, recentemente tivemos a notícia de um grande acidente com um carro autónomo nos Estados Unidos, criando um alarmismo generalizado. Ainda vejo um longo caminho a percorrer.

E, particulamente, não consigo ver um futuro só com veículos autónomos. Eu posso não querer estar num carro sem condutor, posso querer ser eu a conduzir o meu carro porque gosto ou porque me sinto mais segura. O mundo não caminha todo na mesma direcção, há sempre diversidade. Existem empresas e pessoas que apoiam a ideia da condução autónoma de veículos, mas muitos outros são contra. Só consigo imaginar uma solução híbrida, que permita as duas coisas.

A Uber é o melhor exemplo da mudança na mobilidade a que estamos a assistir?

A Uber deu início a algo incrível. Não entrando nas questões legais, tenho de dar os meus parabéns à Uber pelo conceito que eles criaram de mobilidade como um serviço (Mobility as a Service – MaaS). Começaram com a mobilidade das pessoas, mas depois lançaram o Uber Delivery que junta a mobilidade das pessoas com a mobilidade das mercadorias. A verdade é que, com a Uber, já não precisamos de ter o nosso próprio veículo. Se quero ir do ponto A para o ponto B, eles metem-me lá.

E hoje existem tantas aplicações similares… Vejo a mobilidade como um serviço (MaaS) como o futuro da mobilidade rodoviária, quer de pessoas quer de bens. Porque é algo que nos facilita a vida.

Mas é importante ter em conta que isto também afectará os fabricantes automóveis. Talvez estes deixem de vender tantos veículos, passando o utilizador a alugar mais e a utilizar mais outro tipo de serviços que a fabricante pode disponibilizar. O core-business do fabricante automóvel vai ser alterado. Por exemplo, a pessoa pode adquirir um “passe” junto dsa fabricantes e eles vão enviar um carro sempre que ela precise, sendo que o mesmo veículo poderá ser também utilizado por outras pessoas. E, com isso, teremos menos carros nas estradas. Só que tem de ser uma situação win-win para todos, fabricantes incluídos. Se os fabricantes de automóveis virem isto como uma coisa prejudicial e não uma oportunidade, vão lutar contra! Eles têm de ganhar algo também.

Esse win-win é algo que também terá de ser garantido no negócio dos combustíveis?




Com os combustíveis é um pouco diferente. Quando um governo decide proibir os veículos a gasolina ou a diesel, não há outra opção. Aliás, a mobilidade como um serviço (MaaS) deve ser liderada pelo sector privado porque não há regulamentação nesta área. O que pode o governo fazer se a pessoa quer ter um carro? A menos que o governo coloque alguns entraves fortes sobre a propriedade de um veículo ou comece a limitar o número de carros que entram no mercado todos os anos… Nos combustíveis, os governos já podem implementar impostos mais elevados em carros com combustíveis derivados do petróleo.

Com o conceito de mobilidade como um serviço (MaaS), falamos de um futuro onde não haverá ninguém com o seu veículo próprio?

Essa é uma boa pergunta. Definitivamente caminhamos para isso na Europa e nos Estados Unidos da América, onde o conceito de partilha da viatura é já uma realidade há muito tempo, não é um conceito novo. Nessas regiões, pelo menos 90% da população tem um smartphone e com isso já está meio caminho feito. O smartphone faz tudo, é a maneira mais fácil de partilhar informação. Quando se fala sobre alugar um veículo ou usar uma aplicação de partilha, tudo o que é necessário é partilha de informação. Por tudo isto, vejo que no mundo ocidental estamos sem dúvida a caminhar nessa direcção, não vejo nenhum motivo para que as pessoas possam rejeitar esse conceito e que ele não seja um sucesso. A menos, lá está, que os fabricantes ou os outros players pensem que será algo que afecte o seu negócio.

Mas no que diz respeito ao Médio Oriente, aí o caso já muda de figura. É um mundo diferente porque para esta cultura a partilha de carro é um conceito novo. Aí, até o transporte público é um conceito relativamente novo. Aqui, o Dubai é um bom exemplo porque o que foi feito teve em conta o conhecimento da cultura. O Metro do Dubai, por exemplo, é o exemplo perfeito: eles separaram as classes, criaram uma classe só para as senhoras, tiveram em conta a língua… Já na Europa todos apanham o metro, eu ando ao lado do Mayor de Londres… É normal ver todas as classes juntas. No Médio Oriente é completamente diferente. É estranho partilhar um veículo com um completo desconhecido, as pessoas não estão habituadas a isso. E as pessoas estão muito habituadas ao conforto e à conveniência de ter o seu próprio carro. Depois, os combustíveis derivados do petróleo são mais barataos… Portanto, aí ainda temos um longo caminho a percorrer.

O Dubai, ainda assim, traz-nos excelentes exemplos no Médio Oriente, certo?

O Dubai é pioneiro em muitos projectos. Tem dinheiro mas também vontade e o apoio do governo. Começaram por apostar no conceito de smart-city. E tinham todos os motivos para querer ser únicos, tinham dinheiro, tinham know-how. Aqui as pessoas conhecem pouco mas uma das realidades naquela região foi a pouca aposta no transporte público e nas estradas, não foram uma prioridade durante muito tempo. No Médio Oriente, começaram a construir grandes edifícios e só depois pensaram em como conectá-los. Não possuem uma infra-estrutura rodoviária muito boa… Mas isso não é necessariamente uma coisa má, porque agora podem aprender com os outros. Agora têm sempre outras cidades como referência. Assim, não passam pelas mesmas ‘dores’ de crescimento que outros tiveram para optimizar os seus serviços. Aprenderam com os erros dos outros e começam agora a aplicar a tecnologia para o fazer bem. E a parte boa da tecnologia é que, se for bem aplicada, pode poupar imenso dinheiro para outras coisas.

Por outro lado, é preciso envolver as pessoas também. Porque se são elas o alvo do investimento, não faz sentido ter a tecnologia mais recente se as pessoas para as quais se trabalha não estão comprometidas com as mesmas ideias.

Que projectos a deixam mais entusiasmada no Dubai neste momento?

Fala-se agora do Hyperloop e de táxis voadores no Dubai. Porém, são conceitos completamente diferentes porque têm diferentes tipos de investimento por trás. O conceito de Hyperloop passa por um investimento enorme que, pessoalmente, não acho viável em termos económicos. Não o vejo como a melhor solução. Não vejo que o facto de fazer o percurso Abu Dhabi – Dubai em 12 minutos, em vez dos tradicionais 90 minutos, seja tão benéfico assim… É verdade que é uma redução substancial de tempo, mas o custo de cortar uma hora é justificado? As pessoas irão pagar de facto por essa hora se o valor for extremamente elevado? Temos de ver se se justifica. O Concorde, por exemplo, não vingou.

E agora há outro conceito na China quatro vezes mais rápido que o Hyperloop…

Não me surpreende! A coisa mais bonita na tecnologia é que ela nunca deixa de aumentar o seu potencial. Algo que é novo hoje, amanhã será ainda melhor. Mas, neste caso, é preciso verificar se é justificável economicamente e socialmente.

E em relação aos táxis voadores?




Em relação ao táxi voador, aí concordo em absoluto. Para uma situação de emergência, para um caso onde é necessário um médico para salvar uma vida. Ou, simplesmente, para evitar o trânsito, mas aí temos de colocar as questões do Hyperloop: É economicamente viável? Por outro lado, todos estes novos conceitos estão a criar um novo mercado para a parte jurídica, nomeadamente nas questões de privacidade.

Para mim, faz mais sentido investir esse dinheiro em infra-estruturas que atendam a uma maior número de pessoas do que neste tipo de transporte, que servirá apenas uma pequena percentagem da população. Mas ambos podem ser reais, só que servirão apenas para servir os Reis e as pessoas de classes mais altas. No caso do Hyperloop, até já existe um contrato assinado para avançar no Dubai. Só que, certamente, não irá servir muitas pessoas. Já para não falar que basta um pequeno acidente para bloquear todo o processo, porque a resistência é sempre muita.

É necessário usar a tecnologia que está disponível para caminhar na direcção certa, não só para se ser pioneiro. E há que fazê-lo de uma forma que sirva as pessoas! O Médio Oriente, por exemplo, é a região onde acontecem mais acidentes de carro, não é uma região onde os pedestres se sentem muito seguros. Por isso, primeiro é preciso resolver este tipo de questões e só depois avançar em outros aspectos da mobilidade.

Falou sobre ameaças neste tipo de tecnologias. Uma das ameaças passa também pelos ciberataques e tivemos recentemente o sector dos transportes afectado pelo Petya. Sente que se está a trabalhar bem ao nível da ciber-segurança?

A ciber-segurança é, definitivamente, uma grande questão. No Dubai já se canaliza imenso dinheiro para essa vertente e não ouvi falar em nenhum incidente importante. Para ser sincera, acho que no Médio Oriente essas questões são mais controladas. Sinto que se algo acontecer no Médio Oriente será mais por razões políticas. Os governos gastam muito dinheiro em segurança nesta região.

Na sua intervenção no Congresso da ADFERSIT falou do Big Data como o “ouro” desta nova era. Como está o Dubai a trabalhar para melhorar a mobilidade através deste conceito?

Eu penso que Singapura é o exemplo perfeito em termos de partilha de dados e conectividade de dados, e com isso têm ajudado muitos dos seus cidadãos. Infelizmente, no Médio Oriente não se compartilham dados com as pessoas e também não existe essa partilha de conhecimento entre as autoridades. A partilha de dados é algo muito desafiador e é necessária uma grande mudança de mentalidades para perceber que essa partilha é necessária. Mas isso só se fará se sentirem que podem ganhar alguma coisa. Mas ainda há muita concorrência, infelizmente. Eu trabalhei nos EUA e, mesmo que se sinta um pouco de concorrência entre as diferentes autoridades, são maduros o suficiente para perceber que têm muito a ganhar se comunicarem entre todos. No Médio Oriente isso ainda não acontece. Mas acredito que, com o tempo, também será prática comum.

O Dubai tem muitos projectos em andamento e, como referiu, o dinheiro ajuda. Mas o que pode ser feito num país com muito menos recursos como é o caso de Portugal?

Devo concordar que alguns países têm mais dinheiro do que outros, mas não vejo que tal possa ser visto como a principal questão aqui. Penso que o principal foco deverá estar na priorização dos projectos. No passado, Portugal teve acesso a vários fundos mas decidiram investir em projectos próprios, em grandes investimentos no desenvolvimento de outras coisas que foram entendidas como mais importantes do que os transportes. Levaram algum tempo a perceber que seria importante ter bons transportes públicos. Portanto, o dinheiro existe, pode é não ser aplicado no lugar certo. É importante priorizar de modo a conseguir utilizar o dinheiro de forma mais inteligente e optimizada.

Por exemplo, em Portugal, se o dinheiro não existe, pode ser pedido para, eventualmente, criar um sistema de comboios de alta velocidade que poderá ser rentabilizado, não apenas por Portugal, mas também por países próximos. E, com este, podem assim aumentar os lucros para investir noutras áreas e de seguida aplicá-lo no melhoramento dos sistemas de transporte. A questão do comboio de alta velocidade é algo que é preciso desenvolver. Ter um comboio que ligue Lisboa a Barcelona em muito menos tempo será algo que afectará a economia de ambos os países de forma consideravelmente positiva. Por exemplo, no Médio Oriente está em construção uma ponte entre o Bahrain e o Qatar, porque para viajar de um país para outro tinha de se percorrer um longo caminho. Decidiu-se pela construção da ‘Ponte da Amizade’, mas o projecto foi suspenso por outro país, cujo nome não vou referir, porque não gostou desta ‘Amizade’. Mas a questão aqui é que a ponte irá permitir que se demore apenas 40 minutos entre o Qatar e o Bahrain. E, como alugar uma casa é mais barato no Bahrain, poder-se-á perfeitamente viver no Bahrain e trabalhar no Qatar! Quando dois países trabalham em torno de um bem comum, as pessoas podem tirar partido disso e é bom para ambas as economias. Neste caso, o maior investimento será da parte do Qatar. Pode ser um exemplo para Portugal, talvez se se investisse num projecto de alta-velocidade, provavelmente a Espanha teria a maior fatia de investimento, mas ambos estariam a tirar proveitos disso. Mas é necessário realizar estudos e perceber se de facto é positivo para economia e, se for caso disso, pedir dinheiro emprestado para investir nisso.

Depois, não sou contra a política do utilizador-pagador. Ao utilizar as vias, elas danificam-se! Tem de haver um valor que é pago para que as vias possam ser arranjadas e, claro, parte desse dinheiro pode ser investido na melhoria das infra-estruturas de transporte.

Disse na sua apresentação que a mobilidade pode melhorar toda a economia. De que forma?

Eu tive a possibilidade de passear por Lisboa e penso que Belém, por exemplo, deve ser uma área cara para alugar casa. Mas, se existir um bom sistema de transportes, as pessoas podem viver numa área não tão central. Podem viver lá e estar ainda assim relativamente perto do trabalho. Um sistema de transportes que ofereça essa possibilidade melhora substancialmente a economia desse local. Eu vivi em Chicago, e o lado Sul era um local sem residências. Era perigoso e longe de tudo. Agora é uma das zonas mais caras da cidade! Foram construídas boas casas e, ao mesmo tempo, construíram uma rede de transportes que torna fácil chegar ao centro da cidade.

Se Portugal quiser diversificar, tem de se comparar com cidades que sejam exemplos de sucesso a este nível. Portugal é um país lindo e não entendo como não é rico também. Têm boa música, boa comida, até as pessoas são lindas aqui! E são, de facto, trabalhadoras! Eu fui visitar uma empresa e eram 17h de uma sexta-feira e estava toda a gente a trabalhar. Quando me disseram que estavam ali até às 19h eu soltei um «Really?». Noutros países, numa sexta-feira o escritório estaria deserto àquela hora. Portanto, o que é preciso pensar é em formas de estimular a economia, e a mobilidade é a chave.

Por exemplo, nos EUA há uma tendência crescente das pessoas trabalharem a partir de casa. E isso é óptimo para elas porque não se perde tempo no trânsito ou nos transportes públicos. Depois também temos casos de pessoas verdadeiramente talentosas mas que economicamente não se podem deslocar para um grande centro urbano. Assim podem trabalhar no duro à distância e, ao mesmo tempo, desfrutar das suas famílias. O mundo é tão pequeno hoje em dia que não vejo uma lógica em fazer diariamente o tradicional horário das 9 às 17h. Precisamos ser menos tradicionais, o mundo está a evoluir de uma forma muito rápida, precisamos actualizar-nos.



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