Especial Revista Cargo – Esben Poulsson (ICS): indústria merece «crédito» por ter «persuadido IMO a aceitar o desafio» da descarbonização

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O segundo dia da Portugal Shipping Week (dia 18 de Setembro) arrancou com os discursos de abertura Ana Paula Vitorino e de Llewellyn Bankes-Hughes que antecederam a realização da Flagship Conference. Mas a conferência não arrancaria sem antes a plateia ouvir as palavras (captadas pela Revista Cargo) de Esben Poulsson, presidente da International Chamber of Shipping (ICS), sobre o empenho do sector na persecução do ambicioso desígnio do Green Shipping.



Esben Poulsson: «Portugal tem uma forte herança marítima»

O discurso de Esben Poulsson focou-se, inicialmente, na utilidade global de eventos como o Portugal Shipping Week: uma forma mediática de reunir os players mais notáveis do sector internacional e, perante a comunidade, discutir os temas prementes que pautarão o desenvolvimento do shipping no futuro. «Quantas mais Maritime Weeks, melhor», comentou, para depois puxar dos galões e lembrar que «a ICS representa cerca de 80% da frota marítima mundial».

«Estou satisfeito pelo facto de a associação de armadores portuguesa ser uma das nossas valiosas afiliadas», afirmou Esben Poulsson, lembrando que a ICS «é a principal associação de representação de armadores em toda a indústria global». «Portugal tem uma forte herança marítima», declarou, aludindo aos feitos dos navegadores portugueses – «se eles pudessem agora ver os portos e os navios de que dispomos hoje…ficariam abismados», disse.

Shipping internacional joga, na cartada da descarbonização, a transparência da sua reputação

Findas as notas introdutórias, o presidente da ICS centrou o foco da sua intervenção no tópico do Green Shipping e na urgência do processo de descarbonização global: a mente do sector deverá concentrar-se na resposta à pergunta: «como atingimos os limites que a sociedade nos impõe actualmente, de atingir essa excelência do desempenho ambiental, especialmente na redução de emissões de CO2, que actualmente representam cerca de 2% do total global?». Do sucesso da resposta dada dependerá, assegurou, a reputação da indústria.

«O nosso sucesso na melhoria da eficiência energética será um dos grandes parâmetros pelo qual a indústria do shipping será julgada», atirou. «No que toca à redução de CO2, os governos e os órgãos legisladores continuarão a exigir mais, portanto, torna-se importante que, nós, enquanto indústria, estejamos preparados para tal. Daí a minha intenção em focalizar o acordo atingido nas instâncias da IMO, há seis meses atrás, um verdadeiramente ambicioso salto rumo à acentuada redução das emissões de gases do efeito de estufa no shipping internacional», comentou.

‘The Paris of Shipping’: indústria merece «crédito» por ter «persuadido a IMO a aceitar o desafio»

«Tem havido, recentemente, muita cobertura jornalística sobre este acordo histórico, mas tentarei contextualizar a ambição da IMO, para avaliar se o que foi acordado é ou não suficiente e o que poderá suceder, em termos de novas medidas de redução das emissões de CO2, no futuro», afirmou Poulsson, passando ao elogio da política da IMO em termos de combate à carbonização do sector: «devemos denotar a enormidade daquilo que foi atingido e acordado em sede da IMO e o grande crédito que a própria indústria merece por ter persuadido a IMO a aceitar o desafio de responder afirmativamente ao Acordo de Paris de uma forma tão ambiciosa», constatou.

«Devo lembrar que o shipping e a aviação não faziam parte do acordo inicial. Voluntariamente, nós escolhemos ser integrados. A indústria marítima é muitas vezes injustamente criticada mas este novo acordo torna cristalino o facto do shipping estar bem mais adiante que o resto do mundo com esta estratégia para obter uma genuína e célere descarbonização. Repito: este é realmente um acordo inovador, intitulamo-lo de o ‘The Paris of Shipping Agreement’». Este acordo define um elevado grau de ambição para o futuro no que toca à redução de emissões de CO2, e estamos confiantes que demos à indústria e claro sinal de ‘mãos à obra’ no desenvolvimento de medidas de zero CO2 para que todo o sector atinja uma posição de descarbonização total».

Inaugurados que foram os esforços para edificar um sólido consenso internacional, deve-se agora não olhar para trás, nem titubear perante dúvidas ou second thoughts: «Sem ‘ses’ nem ‘mas’: este foi o claro objectivo: o de radicar completamente as emissões de CO2 no shipping, uma visão promovida pela ICS desde o começo das negociações», afirmou contundentemente.

O Shipping tomou as rédeas da descarbonização…os outros nem tanto…

O presidente da ICS acentuou o compromisso da indústria em inverter o paradigma energético e ressalvou que, quando comparado com o de outros sectores, o esforço do shipping é não só ambicioso como louvável e reflexo de um entendimento global cada vez mais assertivo e consciente: a IMO definiu um objectivo radical de cortar as emissões de CO2 do shipping internacional até pelo menos 50% até 2050, comparado com 2008. Esse é um corte bastante ambicioso, especialmente num contexto de previsão de contínuo crescimento do comércio global».

Ora, este tipo de compromissos não tem sido considerado por sectores como os da aviação ou do transporte rodoviário de mercadorias: lembrou Esben Poulsson que a aviação « não demonstrou um claro plano» de redução das emissões de CO2 ou de descarbonização, lembrando que também o sector rodoviário rejeitou a proposta da União Europeia para a redução das emissões, afirmando que tais medidas são «irrealistas» e «tecnologicamente impossíveis», descreveu o presidente da ICS.

Descarbonizar implica adopção de sistemas de propulsão limpos

«A total descarbonização pode ocorrer antes de 2050, caso novos sistemas de propulsão e combustíveis sejam disponibilizados antes das expectativas temporais que hoje temos. A ICS está confiante de que a nova tecnologia acabará por acelerar esse processo, seja com fuel cells, baterias ou energias renováveis, novos combustíveis (à base de hidrogénio, por exemplo)», analisou.

«Embora ainda prisioneiros do combustível fóssil, já fomos capazes de reconhecer que a total descarbonização apenas pode ser atingida através da adopção de sistemas de propulsão com zero emissões de CO2, esse será o desafio da próxima geração», comentou, enaltecendo os primeiros ventos de mudança: «O total de emissões de CO2 no shipping é já 8% mais baixo que em 2008, apesar do crescimento de 30% no comércio global. E devemos lembrar que a IMO já legislou sobre a obrigação de, a partir de 2025, os novos navios terem de ser 30% mais eficientes em termos ambientais».

«Objectivos ambiciosos terão de ter a cooperação dos governos»

«Objectivos ambiciosos terão de ter a cooperação dos governos para serem realmente exequíveis; terão de fomentar o surgimento de novas tecnologias que contribuam para tal. O GNL é uma ‘solução de entrada’, mas a o nível de descarbonização (previsto para 2050) apenas poderá ser atingido através de sistemas de propulsão de zero emissões de CO2», frisou novamente Esben Poulsson.

Foto: Porto de Lisboa



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