Fretes elevados e congestionamentos bloqueiam fluxos logísticos e ameaçam integridade das empresas

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Está instalada uma crise global no sector da Logística e dos Transportes. Um dos grandes sintomas afecta já inúmeras empresas e dissemina-se, até agora, sem cura à vista: o aumento galopante dos custos dos fretes, que, indubitavelmente, se reflectirá em efeito dominó por todos os elos da cadeia, até ao consumidor final. Os atrasos sucedem-se e bloqueiam vários portos, com as transportadoras marítimas a reagirem através da imposição de taxas de congestionamento: Felixstowe e Southampton, Inglaterra, estão entre os portos mais afectados. Outros se seguirão.

Trifecta dos 3 Cês: Christmas, Corona and Customs

Em reacção desesperada, o sector de logística britânico escreveu ao Departamento de Transporte, solicitando urgente auxílio na eliminação dos atrasos nos portos britânicos, reportou ontem a BBC. Os calendários dos serviços marítimos foram inicialmente interrompidos durante as primeiras fases da pandemia de COVID-19, mas, recentemente, um aumento da procura por bens importados gerou uma acumulação de procura por contentores vazios, que, agora, vêm causando graves congestionamentos nos portos do Reino Unido, admitem as empresas britânicas.

O Porto de Felixstowe sente na pele os efeitos deste fenómeno: no decorrer desta semana, as líderes de mercado Maersk e MSC anunciaram a aposta em Liverpool em detrimento de Felixstowe para dar «estabilidade» aos seus serviços transatlânticos. Para Alex Veitch, líder do grupo comercial Logistics UK, tudo se deve ao cruzamento de três factores – os «três C’s»: Christmas, coronavirusandcustoms. A correria da época natalícia junta-se às (ainda persistentes) disrupções logísticas inerentes à pandemia, que, por sua vez, contam ainda com o agravamento das incertezas face ao conturbado processo do Brexit, explicou o general manager da UK Logistics, em declarações à BBC.

Do importador à gigante liner: a disrupção já é indisfarçável

Vamos, então, a casos particulares e concretos: a reportagem da BBC dá-nos o relato do empresário inglês Adam Russell, que gere uma empresa que importa electrodomésticos para o One Retail Group, que tem a sua sede em Londres. A situação, descreveu, é «assustadora». «Costumávamos pagar 2 mil dólares para enviar um contentor de 40 pés para o Reino Unido. Agora estamos a pagar, pelo menos, entre 8 a 10 mil dólares» – um incremento que praticamente quintuplicou, e que ameaça de morte muitas empresas. «Em última análise, isto significa que vamos ter que parar de importar ou, então, vamos ter que passar a factura para o consumidor», admitiu Adam Russell, frisando que as margens já se esfumaram totalmente.

Segundo o empresário, é actualmente «quase impossível» retirar mercadorias da China, uma vez que cada vez menos navios navegam rumo ao Reino Unido, existindo também uma acentuada escassez de contentores vazios prontos para serem enchidos nos portos chineses. Aumentemos então o espectro de análise, passando do importador para uma gigante companhia marítima: como a CMA CGM. A liner francesa viu-se forçada a alertar os importadores britânicos para não fazerem mais reservas em navios provenientes da Ásia, pelo menos, até à derradeira semana de 2020. A fabricante de veículos nipónica Honda revelou que os atrasos nos portos do Reino Unido têm atrasado as importações de peças – em resultado disso, a empresa decidiu interromper a produção foi temporariamente, desde ontem, Quarta-feira, na sua fábrica de Swindon.

Fretes disparam: consumidores pagarão a factura, empresas enfrentam falências

As empresas de logística responsáveis ​​pelo transporte de mercadorias dos portos para os armazéns descrevem uma situação cada vez mais stressante: quer para o fluxo logístico e para a integridade das cadeias, quer emocionalmente. «Tivemos uma funcionária que saiu porque não pode aceitar mais as reclamações dos clientes», revelou à BBC Ryan Clark, director da Westbound Logistics Services, empresa de Essex. Com os pedidos de embarque a para o Reino Unido a aumentarem, o tempo de descarga dos navios aumentou em proporcionalidade, levando a que existam menos vagas para estes atracarem nos portos britânicos. Daí à situação extrema de congestionamento é um passo pequeno.

«O aumento dos fretes está a gerar preços mais elevados para o consumidor ou insustentabilidade para empresas, que, assim, serão forçadas a fechar se lidarem com situações em que o preço posterior não pode ser aumentado», explicou ainda o director da Westbound Logistics Services.

Neste contexto, e tal com a Revista Cargo já noticiou, vozes de descontentamento se ergueram também em Portugal: em nome dos transitários lusos, a associação APAT emitiu recentemente um comunicado, no qual deixa duras críticas ao comportamento das transportadoras marítimas, instando a que estas parem de ser parte do problema e comecem a ser parte da solução. «Já decorrem investigações nos EUA, na China e na Índia onde já estão a analisar as políticas e as práticas das companhias marítimas globais relacionadas com Detention & Demurrage, devolução de contentores bem como a disponibilidade de contentores e ainda as inúmeras sobretaxas criadas e aplicadas às empresas exportadoras, importadoras e aos transitários».

«Se num primeiro momento todos compreendemos alguma instabilidade, hoje gostaríamos que o transporte marítimo fizesse a sua parte e fizesse parte da solução e não do problema. Infelizmente a única solução encontrada parece ser o incremento de preços seja porque via seja», acrescentou a associação. A associação lamentou ainda no comunicado que, «apesar de muitas insistências através das Associações Europeias que representam as Associações Nacionais junto da CE, esta nada tem feito para que se inverta a situação».

Fonte: BBC

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