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João de Castro Guimarães (GS1): «Papel da GS1 é vital para a digitalização das empresas»

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REVISTA CARGO: Como tem evoluído a actividade da GS1 em Portugal? E qual a representatividade do sector de Transportes e Logística no vosso universo de associados?

joão de castro guimarães gs1JOÃO DE CASTRO GUIMARÃES:No final de Dezembro, tínhamos mais de 8 mil associados. Grande parte deles pertencem ao sector do Retalho e Bens de Consumo, que foi a área onde começámos. Já o sector dos Transportes e Logística acaba por atravessar muitos dos sectores com os quais trabalhamos, sabemos que todas as empresas nossas associadas têm a sua própria vertente de Transporte e Logística.

A evolução da GS1 em Portugal tem sido muito interessante, temos crescido de forma sustentada. Há sete anos iniciámos um processo de mudança radical e gradual, o próprio presidente da GS1 diz que nunca tinha visto uma organização mudar tanto. Foi um processo de mudança que nos fez crescer muito. Começámos a perceber que nos sectores mais maduros o crescimento não seria tão grande, pelo que havia que encontrar novos sectores.

Definimos um plano estratégico para não andar com medidas casualísticas, tendo um planeamento que nos permita saber para onde vamos crescer.

Neste âmbito, tenho de destacar um parceiro, a AECOC, uma associação reputada em Espanha, que não é meramente uma associação de gestão de códigos, vai além do que nós fazemos. Queremos traçar o nosso caminho mas muito do que fazemos foi aprendendo com eles. Hoje, temos uma quantidade grande de serviços  que colocamos à disposição dos nossos associados. Porque a nossa obrigação de crescimento nos sectores cuja maturidade começa a dar pouca margem de crescimento passa por criar serviços que acrescentem valor aos nossos associados.

O sector dos Transportes e Logística insere-se nos com maior grau de maturidade ou é um sector onde a GS1 ainda pode crescer muito?

A esse sector chegamos com maior facilidade através dos nossos clientes de outros sectores. Temos de ir por aí. Nós fizemos um trabalho onde envolvemos mais de 1.000, em conjunto com a Sonae. Aí foi possível verificar a boa utilização da hierarquia dos códigos. Os produtos são como as pessoas, quando nascem têm de ter uma identificação única. Depois o produto entra numa caixa ou num pack, onde é importante passar para a hierarquia seguinte de identificação.

Por sua vez, essas caixas vão constituir uma palete e faz-se o mesmo processo, já com 18 dígitos, onde nos dizem tudo o que vai naquela palete.

Neste projecto com a Sonae, vamos agora começar com os processos de formação, onde entram os motoristas e a pessoa que carrega e descarrega nos cais, pois são eles os pontos de contacto e é a eles que devemos passar a importância destes códigos. Sem investimento nenhum, as empresas vão conseguir poupar imenso dinheiro.



Espero que esta entrevista sirva também para aproximar as empresas de Transporte da GS1 Portugal. Porque muitos ainda pensam que isto é para ser feito com os seus clientes. Devem perceber a importância que têm neste processo e também os ganhos que terão se estiverem totalmente dentro do processo.

É através de projectos como este com a Sonae – e que queremos alargar também à Auchan, Jerónimo Martins, Intermarché e outros grandes grupos – que queremos fazer ver às empresas a importância destas questões, assim como para os seus fornecedores, nomeadamente de Transportes. No mundo da Internet e da Digitalização, o nosso papel é vital, porque ao digitalizar os dados a qualidade desses dados tem de ser a melhor possível.

Que grandes desafios identifica na gestão de códigos a nível global?

Isso foi também equacionado no nosso Plano Estratégico. Fomos ouvir os grandes players, em Portugal e lá fora. E foram identificadas quatro macrotendências: a Sustentabilidade; a Saúde e o Bem-Estar; a Segurança Alimentar; e o End-to-End da Cadeia de Valor e os seus Standards. Dentro destas macrotendências, definimos um conjunto de prioridades e desafios. Sendo nós B2B, chegou o momento de considerar o consumidor como um parceiro vital, a quem temos de chegar. Orientamos as nossas prioridades pela transparência, pois é uma exigência do consumidor. Já não se compra por comprar, o consumidor quer saber o que tem o produto. E nós facilitamos esse conhecimento, damos transparência e qualidade de informação aos nossos associados, que depois transmitem essa informação para o consumidor.

Outra prioridade é a fidelização dos clientes. Temos de desenvolver trabalhos na área da rastreabilidade, na forma de identificar um produto defeituoso dentro de um lote, bem como a sua origem. Realizámos recentemente um trabalho de rastreabilidade com a Docapesca, para o pescado, e a ideia é passar esse tipo de informação aos retalhistas que, com um código bidimensional, podem ter acesso a toda a informação.

Por fim, outra prioridade passa por dar resposta ao desafio da última milha. Nós somos a entidade que promove a digitalização do retalho e dos bens de consumo. Seremos nós também a controlar a informação dos produtos que circulam na internet. A GS1 global está a desenvolver uma base de dados onde já estão cerca de 8.000.000 de itens.

Na última milha, há desafios muito grandes, nomeadamente a necessidade de dar resposta a uma urgência cada vez maior na entrega mas também tentando evitar a entrada de demasiados veículos nas cidades. Como vê esse desafio?

Ainda teremos de fazer muito neste âmbito, é um tema preocupante. Ainda vejo longe os drones a fazer entregas à nossa porta. A distribuição urbana está em franco crescimento e a GS1 quer ajudar nos novos desafios, nomeadamente através da qualidade dos dados. Já se conseguem ver algumas empresas a colaborar, tivemos no nosso evento a solução MixMoveMatch, que agrega a carga à entrada das grandes cidades e depois a distribui de forma muito mais rentável e eficiente. Depois, entra também a questão do custo de transporte, que ninguém parece disposto a assumir.

Quem compra entende que é quem vende que deve assumir esse custo e vice-versa. É um negócio que ainda tem de estabilizar e onde a colaboração e a qualidade da informação serão essenciais.

No vosso recente Congresso de Boas Práticas Colaborativas, Costa Faria admitiu que, antes de avançarmos para tecnologias de ponta, se calhar voltaremos um pouco atrás na história e faremos novamente entregas a pé e de bicicleta. Acredita nessa visão?

A Accenture, num estudo com cerca de 10 anos, já falava num quarto player logístico (4PL), que seria um parceiro que estaria à entrada das grandes cidades e agruparia as entregas capilares, que têm dificuldade na distribuição urbana por serem muito pequenas.

Assim, talvez vamos assistir cada vez mais ao encontro de entidades que possam fazer a grupagem dessas entregas capilares em circuitos previamente definidos com veículos mais pequenos, entre os quais as bicicletas. Pode ser a solução antes das soluções como os drones. Na GS1 temos noção que a Logística é uma área que representa custos enormes. Nós queremos ajudar.

Nesse Seminário, o foco esteve na Logística 4.0. O que motivou a escolha desse tema?

Como referido anteriormente, uma das nossas prioridades é o last-mile. E o ano que passou foi muito interessante nessa área. Nós temos um papel muito importante na digitalização do comércio e do retalho português, acho que somos vitais na indústria 4.0. O que queremos é ter uma participação muito activa na digitalização. E queremos, acima de tudo, incentivar a utilização dos nossos códigos e chamar a atenção para a qualidade e fiabilidade dos dados transmitidos por essa via.

Dentro de uma série de tendências que foram faladas nesse evento sobre a Logística 4.0, quais vê com maior potencial disruptivo para este sector da Logística e Transportes?

Tendo de escolher uma, escolheria o Blockchain. Depois de devidamente experimentado, acredito que será revolucionário. Na GS1 estamos muito atentos ao que se passa com o Blockchain. Acho que é uma tecnologia com grande potencial para diversos sectores. Para cumprir o nosso papel, temos de estar muito atentos a estes temas e a estas novas tecnologias.

joão vasconcelos gs1Na sua apresentação, João Vasconcelos voltou a referir que vê em Portugal um grande potencial pra assumir papel de vanguarda na questão do 4.0. Estamos a trabalhar bem esse potencial?

Eu, sinceramente, acho que estamos atrasados. Mas concordo que temos um potencial imenso. Nesta quarta revolução industrial temos, finalmente, os recursos necessários para conseguir liderar, que são as nossas pessoas. Temos o Web Summit a decorrer em Portugal, alo que também pode ser um importante impulso. Temos também a COTEC, que é uma entidade que tem um papel importante na inovação.

Que vantagens identifica para que as empresas de Transportes e Logística tenham cada vez mais vontade de trabalhar com a GS1?

Esse é de facto um sector que nós temos tentado conquistar, mas ainda não o fizemos como queremos. Só temos chegado ao sector através dos seus clientes. Mas as empresas dos Transportes e Logística devem estar connosco directamente.

Nós temos um comité de operadores logísticos connosco que promove eficiências grandes, a boa utilização da etiqueta logística, temos pilotos que evidenciam as vantagens. E isso tudo de uma maneira gratuita ou, no máximo, pagando custos que são perfeitamente acessíveis a todos. É um desafio que lanço, venham ter connosco! Venham ao nosso comité de logística, pois seguramente vão perceber que connosco terão vantagens em custos, eficiência, transparência ou sustentabilidade.



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