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José Simão (DGRM): Princípios para digitalizar a logística e acelerar o comércio internacional

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O transporte marítimo, no mês de março, ficou marcado pelo bloqueio do Canal de Suez devido a um acidente de navegação com um navio de contentores de última geração. Esta ligação de 190 Km permite uma ligação mais rápida entre o Ocidente e o Oriente e é essencial para o shipping e para o comércio mundial.

As infraestruturas são essenciais e devem acompanhar a evolução da tecnologia e da ciência. O Canal de Suez foi construído em 1869 e nessa altura era impensável as dimensões que os navios atualmente atingem, quer em comprimento e boca, quer em dimensão fora de água. A muralha de contentores que os maiores navios atingem na rota que liga a Europa ao Far East, por este canal, cria uma superfície velica de grandes dimensões, que influencia as manobras dos mesmos. Aparentemente, poderá ter sido este o motivo que levou ao desvio do navio de 400 metros de comprimento da rota precisa na travessia do canal cuja largura não foi projetada para este tipo de navio.

É preciso responder à evolução da tecnologia de construção dos navios e às dimensões que estes atualmente atingem. Esta é a razão pela qual os portos tendem a seguir sempre a evolução dos navios. É um princípio basilar nas infraestruturas. O mesmo deve acontecer com a evolução da tecnologia em outras áreas de aplicação. É o caso da digitalização e a sua utilização na logística de suporte ao comércio internacional.

A digitalização responsável e acessível facilita a logística do transporte internacional, tornando-a mais célere, otimizada e segura, resultando numa potenciação do comércio internacional, para o qual o transporte marítimo e os portos são cruciais. O mundo está conectado pelo transporte marítimo, pelos portos e pela logística associada. Na sua definição mais tradicional, a logística resume-se à gestão dos fluxos físicos e dos fluxos de informação. Mas a logística moderna é cada vez mais uma atividade colaborativa de todos os atores envolvidos, à qual a digitalização poderá trazer muitos benefícios de facilitação, redução de custos e aceleração.

Neste processo de digitalização responsável e acessível de suporte à logística e ao comércio internacional existem vários princípios a ter em conta. Em primeiro lugar, o princípio da neutralidade. Deve ser um processo neutro do ponto de vista comercial, político e de competitividade. O objetivo é evitar os desenvolvimentos individuais ou de grupos comerciais ou conjunto destes, enveredando-se por uma lógica de todos se poderem ligar e partilhar dados em igualdade de circunstâncias, ou seja, permitindo a conexão única, universal e depois a partilha de dados, a partir de qualquer lugar.

FrotaQualquer pessoa ou empresa deve poder ligar-se às soluções disponíveis, prestar serviços de valor para os seus clientes e para a rede, aumentando, desta forma, a sua capacidade inovadora dentro da logística. Uma vez disponível, os seus serviços devem poder ser utilizados imediatamente em qualquer lugar através da rede. Outro princípio é o da autenticação digital universal, essencial ao desenvolvimento de ecossistemas digitais globais. Um método aceite por todos e de caráter universal é a base para a confiança, remoção de barreiras para a interoperabilidade digital entre diferentes empresas de diferentes países e eliminação de custos associados à gestão de múltiplas identidades digitais.

A autenticação adequada deve assegurar de forma unívoca quem é que cada um realmente é, bem como o que está autorizado a fazer. Só isso permitirá garantir a integridade nas transações digitais, permitindo a confidencialidade (só as partes envolvidas podem ver as transações ou quem estas autorizarem), o não repúdio (não negação de transações a quem deve estar envolvido) e resistência à violação (uma transação assinada não pode ser alterada).

Outro princípio é a visibilidade partilhada da cadeia. Com o objetivo central da digitalização em se otimizar o ecossistema de negócios, a visibilidade da cadeia é um fator da maior importância para se atingir este objetivo. O acesso às informações logísticas é essencial para se tomarem decisões em tempo útil, que beneficiem todo o ecossistema.

A visibilidade partilhada permitirá verdadeiramente ligar digitalmente os atores de uma forma padronizada. Deverá permitir dinamicamente a adesão ou a saída de todos os atores no ecossistema de negócios, recebendo de todos eles a informação digitalmente com a mesma qualidade, consistência e em tempo real, de forma a que cada um tome as suas decisões individualmente. Estas faculdades devem ser universais e não apenas de um subgrupo do ecossistema.

Outro princípio é a otimização das escalas nos portos. Em média, vários estudos indicam que os navios passam entre 60 a 70% do seu tempo atracados nos terminais marítimos. As escalas dos navios envolvem um conjunto de atores muito alargado, que tipicamente estão focalizados nas suas atividades, desconhecendo, muitas vezes, o que os restantes fazem.

Nesta medida, é muito importante disponibilizar a todos os atores toda a informação relevante da escala e o acontecimento de eventos em tempo real para as entidades autorizadas, no sentido de se aumentar a eficiência e reduzir os tempos de espera. Esta otimização vai aumentar a eficiência e reduzir custos em todo o ciclo da escala.

Todos os atores envolvidos numa escala portuária devem partilhar as suas intenções e atividades numa lógica de trabalho colaborativo e de otimização, e assim, partilhar o conhecimento situacional ao longo das operações portuárias desenvolvidas e das entidades envolvidas. Isto permitirá que todos os atores, em pé de igualdade, possam prever e planear quando as operações e serviços se vão desenrolar com a respetiva afetação de recursos, numa orientação just-in-time das operações e adequada coordenação de movimentos e operações.

navio grupo rickmersO princípio de otimização das escalas deve ser universal em todos os portos marítimos e deve igualmente ser alargado a todas as escalas de comboio e de camião. Deve também ser universal em todos os portos secos do hinterland alargado.

Outro princípio essencial é a interoperabilidade na passagem de fronteiras. A melhor resposta a este princípio é a implementação da “Single Window” de âmbito nacional. Consegue-se, por esta via, disponibilizar um único ponto para entrega da informação para passagem da fronteira, estando as entidades oficiais em backoffice a tratar dos despachos e autorizações. O cliente recebe por esse ponto único as respetivas respostas e autorizações, num ambiente totalmente paperless. Para dar cumprimento deste modelo, sempre que os requisitos e a quantidade de informação justifiquem, a “Single Window” disponibiliza mecanismos de interoperabilidade informacional e as entidades envolvidas adaptam os seus sistemas para permitir essa interoperabilidade automática.

Os portos marítimos são fronteira externa da União Europeia, pelo que não podem deixar de implementar este princípio e de cumprir os requisitos europeus de envio de informação para os respetivos organismos comunitários.

O penúltimo princípio, é o da abrangência à cadeia logística. Apesar do generalizado sucesso de implementação da “Single Window” na passagem de fronteira, verifica-se ainda que continuam a existir muitos documentos físicos para satisfazer os requisitos dos vários atores privados do negócio envolvido, das autoridades e de terceiras partes, especialmente nos movimentos pós passagem da fronteira.

Vários estudos indicam que para se maximizar os benefícios de uma “Single Window”, a sua abrangência deve ser alargada para incluir toda a troca de informação de passagem da fronteira e a sua integração a montante e a jusante, numa lógica intermodal e de penetração no hinterland e de tentativa de ligação para o foreland.

Janela Única Logística JULPor fim, apresenta-se o princípio da convergência total da digitalização, nomeadamente no que respeita a outras plataformas eletrónicas. Futuramente nenhuma plataforma desta natureza poderá ser eficaz se estiver isolada. A solução nacional de digitalização da logística terá o seu âmbito de atuação e terá que se integrar com outras plataformas de outras regiões ou de outros âmbitos de atuação ou agrupamentos de parceiros privados.

São vários os exemplos de plataformas que, a prazo, são justificadas integrações de colaboração com a solução portuguesa, da Janela Única Logística (JUL). A NEAL-NET é um caso de sucesso para o comércio e passagem de fronteira no Far-East, designadamente entre as três potencias produtivas China, Japão e Coreia. As plataformas do shipping são outro exemplo, designadamente a INTTRA ou a INFO NEXUS, ou mesmo, a TradeLanes, mais focalizada na gestão de contratos no mercado dos Estados Unidos com o pacífico. Todas elas são importantes e todas elas deverão funcionar em rede no futuro. Umas terão mais sucesso, outras desaparecerão, surgirão novas plataformas, mas o futuro será cada vez mais de colaboração e interoperabilidade.

Em conclusão, parece claro que os atores da logística, quer de natureza pública quer privada, devem colaborar na implementação das soluções de digitalização e de aceleração do comercio internacional. Aumentará a atratividade do território e dos negócios, resultante de um contexto de maior inovação, redução de custos e aumento de mercado. Os princípios referidos permitirão um desenvolvimento mais neutro, inclusivo e equitativo, pois a sua aplicação resultará num aumento da eficiência administrativa para todos os atores envolvidos.

Um ambiente aberto e com igualdade de oportunidades, num mercado global de acelerada eficiência e digitalização, é essencial para o desenvolvimento económico. Tal como o Canal de Suez é atualmente um pilar para o comercio mundial e é utilizado por todos os atores num regime de livre acesso, também os princípios apresentados são os pilares para se atingir essa aspiração na digitalização da logística.

Artigo de opinião de José Carlos Simão – Director Geral da DGRM

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