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José Castel-Branco (APL) em discurso directo: O futuro do Porto de Lisboa em análise

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José Castel-Branco APLA Revista Cargo acompanhou, ao detalhe, a intervenção do administrador da APL, José Castel-Branco, na conferência ‘Conversas de Bordo‘, organizada pela APAT – um momento importante para ouvir as prioridades estratégicas da administração portuária para o presente e para o futuro da infra-estrutura poda capital, numa fase pós-pandémica que quer apresentar um novo fôlego directivo, após a saída da experiente Lídia Sequeira. José Castel-Branco, que encabeça esta nova fase, abordou a aposta no tráfego fluvial e a intermodalidade, o investimento da Yilport Liscont, o desígnio da harmonização entre a eficiência operacional do porto e a malha urbana, a sustentabilidade ambiental e questão (por definir) da Bobadela.

Porto de Lisboa quer «recuperar o posicionamento» nacional e ibérico

«O Porto de Lisboa tem de ser dinâmico, juntando forças e vontades, para recuperar o posicionamento em termos dos portos nacionais e ibéricos. E a melhor forma de o fazer é apontar armas ao futuro. Temos a convicção de que temos de saltar algumas etapas, falo no caminho da modernização. Estamos a apostar na mudança, na modernização e na conquista da cidade. O porto da capital vive hoje desafios superiores aos dos outros portos. A capital tem interesses diversos, uma classe política muito voltada para o rio, que, muitas vezes, vê o porto como obstáculo. O nosso papel é promover essa integração. Informar os portugueses sobre a responsabilidade que o Porto de Lisboa tem em toda a cadeia logística nacional, e do seu interesse e da importância vital, nomeadamente para esta área de hinterland que é a região central do país. Esse é o nosso grande desafio, e só pode ser atingido com todos os intervenientes que usa e beneficiam da actividade do Porto de Lisboa», começou por declarar o administrador.

Para José Castel-Branco, é vital e urgente agregar as partes interessadas em torno de um plano comum, que possa atender aos interesses variados dos players que compõem a complexa teia de actuações e responsabilidades do porto. «Estamos a lidar com alguns desafios, como a paz social, que é um mal que nos afecta ciclicamente, mas que faz parte do dia-a-dia de qualquer porto em qualquer parte do mundo. Temos que estar preparados para enfrentar esses desafios. Julgo que o futuro se apresenta desafiante: enfrentamos questões que se prendem com as interligações ou com a questão da Bobadela (que não afecta só o Porto de Lisboa). A APL tem como missão ampliar a sua capacidade de intervenção a todos os níveis, em termos de área de actuação, temos de aumentar a nossa presença junto dos parceiros, stakeholders (directos ou indirectos), junto das populações. É para isso que nos preparamos», vincou o responsável, abordando também o investimento da Yilport Liscont no Terminal de Contentores de Alcântara.

Projecto da navegabilidade do Tejo «permite alargar horizontes»

«Estamos a olhar com alguma satisfação mas também precaução para este investimento da Yilport Liscont, que será o grande investimento na área do Porto de Lisboa nos próximos anos e para a renovação da área oriental – temos de promover uma maior integração dessa área com a cidade. Temos já preparado um projecto para rever a portaria oriental e preservar aquela zona da circular, que é uma fronteira com a cidade urbana. Queremos níveis de eficiência ideais integrados e harmonizados com a malha urbana». A aposta nas potencialidades do Tejo é primacial para o porto – «Relativamente aos projectos de ligação, apostamos muito no projecto da navegabilidade do Tejo, pois achamos que, quando há constrangimentos na cidade, temos de procurar outras soluções, e devemos procurá-las onde há espaço e áreas onde haja ligação intermodal. Acreditamos muito neste projecto, cuja viabilidade financeira vai depender da actividade de terceiros. É um projecto que permite alargar horizontes, e temos de pensar em complementá-lo com condições de actuação na Castanheira do Ribatejo. Temos de procurar formas alternativas de fazer chegar a carga a áreas onde esta possa depois ser facilmente distribuída. Já se encontra em curso o estudo de avaliação de impacte ambiental», explanou José Castel-Branco.

APL equaciona criação de uma zona logística, adiantou José Castel-Branco

Nas cogitações da APL está também a criação de um novo terminal e de uma zona logística, revelou: «Temos de promover também a criação de um novo terminal, e, possivelmente, de uma zona logística. Estamos a tentar encontrar parceiros e projectos (que possamos apoiar) para criar uma nova zona logística, que vai ao encontro da nossa vontade de aumentar a nossa carga fluvial. Tal projecto permite aligeirar a pressão do tráfego de camiões na zona central de Lisboa. Temos outros projectos, mais difíceis de concretizar, como o desnivelamento do cruzamento ferroviário do nó de Alcântara, que permitiria uma maior fluidez dos nossos comboios e no acesso ao porto na área da Alcântara», adiantou, explicando que o porto existe em constante pressão geográfica e morfológica, tanto na margem Norte como na margem Sul. «Se na margem Norte estamos pressionados pela malha urbana que é a cidade de Lisboa, na margem Sul estamos pressionados pelo crescimento das cidades (Almada, Seixal, Barreiro)», disse.

«O projecto do Barreiro está posto de parte, neste momento abandonámo-lo, nunca podemos dizer ‘completamente’, mas de facto, não é uma alternativa sustentável. Na margem Sul temos também o desafio dos depósitos de combustível e no fornecimento, aos navios que entram no Porto de Lisboa ou que lá se vão abastecer. Teremos que procurar alternativas (desde o biodiesel, ao GNL) já para não falar na parte eléctrica – o projecto que temos, neste capítulo, passa pelo fornecimento de electricidade aos navios que estão atracados no Porto de Lisboa, para evitar que consumam combustíveis fósseis durante o espaço de tempo em que estão atracados. É um projecto de grande dimensão que não tem viabilidade financeira, que terá de ser pago pelo Porto de Lisboa. A rentabilidade económico-financeira deste projecto é difícil de atingir, pois exige um financiamento a fundo perdido», explicou, lembrando que a sustentabilidade ambiental e a integração com a malha urbana são fundamentais para garantir o futuro do Porto de Lisboa». No entanto, nada faz sentido sem salvaguardar a capacidade de captar cargas, lembrou o administrador.

A chave do sucesso está, também, na sintonia entre stakeholders e na consciencialização da essência utilitária e estratégica de um porto para a economia do seu país junto das populações. «Não vale a pena falar de futuro sem cargas. Temos de contar com os nossos concessionários, operadores, e, acima de tudo, com a estabilidade e capacidade de resposta. Não podemos falhar. A APL tem apelado aos concessionários e operadores para a tomada de acções conjuntas que permitam informar a opinião pública sobre os benefícios de um porto, de todas as implicações das cargas que chegam diariamente ao porto na vida das pessoas. Temos de fazer um esforço adicional para chegar ao decisor e às pessoas, à opinião pública generalizada e julgo que, neste momento, não o estamos a fazer», sublinhou José Castel-Branco, deixando o mote para o sucesso: «É necessário unir esforços».

Tema quente da Bobadela realça importância do abastecimento no hinterland

Quanto ao tema da desafectação do Complexo Ferroviário e Logístico da Bobadela (saiba mais aqui) e às consequências de uma deslocalização dessa área, o administrador da APL assinalou a importância da infra-estrutura e os potenciais aumentos de custos (começando pelo custo do contentor) que serão vertidos no preço final dos produtos, apresentado ao consumidor. «A questão da Bobadela tem sido muito falada. Será um tema forte nos próximos tempos. E podemos aproveitar este contexto para realçar a importância de um abastecimento feito em condições neste hinterland central da região. É difícil explicar às pessoas que, se um contentor aumenta de preço por ser transferido da Bobadela para outro sítio qualquer, isso será reflectido directamente nas suas vidas», comentou, lembrando que haverá, expectavelmente, aumento de custos nesta deslocalização.

Porto de Lisboa encara «nova fase»: pandemia foi «momento de reflexão»

A-ETPL porto de lisboa aoplJosé Castel-Branco abordou ainda o surgimento da pandemia de COVID-19 – que atacou Portugal a partir de Março do ano passado – e o efeito negativo que esta teve num porto que vivia uma fase de clara recuperação de tráfegos, na ressaca de uma disputa sócio-laboral que deixou marcas duradouras. Contudo, o momento serviu para reagrupar e reflectir: «A pandemia foi um momento muito difícil, a APL perdeu muitas receitas e muita capacidade financeira de intervir, mas também foi um momento de paragem e de reflexão que nos permite partir para uma nova fase. Enfrentámos uma fase de recuperação de cargas, até 2020, depois uma fase de pandemia em que tudo mudou e as cargas fugiram, e, o próximo desafio, dizia a dra. Lídia Sequeira [que saiu da presidência da administração por opção própria, em Março passado], será o futuro do Porto de Lisboa numa nova fase, um novo desafio para outras pessoas – a dra. Lídia deixou-nos esta imagem. Portanto, estamos numa situação de mudança. Temos que enfrentar o futuro da APL com a força de quem quer que o porto cresça e se desenvolva, sem olharmos para o passado. Não vale a pena ficar a olhar para o passado e para as cargas que perdemos. Temos de crescer, se não for com estas cargas, será com outras», explicou o administrador.

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