Luís Baptista: “ENIDH tem dado passos muito importantes na área da digitalização”

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A Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH) inicia um novo ano civil com vários desafios pela frente mas com o optimismo de sempre.

Pela voz do seu Presidente, Luís Filipe Baptista, a Revista CARGO antecipou o novo ano que agora começou, numa entrevista que corre várias áreas e onde fica claro o trabalho da Escola em várias frentes2, nomeadamente na necessária adaptação às novas formas de ensino e formação mas também às novas realidades do sector marítimo.

Leia aqui a extensa entrevista, em exclusivo à Revista CARGO:

REVISTA CARGO: A ENIDH caminha a passos largos para o seu centenário – como é liderar os destinos de uma instituição tão histórica e fundamental no domínio da formação marítima?

Luís Baptista presidente ENIDHLUÍS FILIPE BAPTISTA: A Escola Náutica fundada em 1924, é uma instituição com muita história e tradição na área da formação marítima e portuária. A instituição tem dado um contributo inestimável para a formação de oficiais da marinha mercante e outros quadros superiores para o setor marítimo-portuário e setores afins. Ao longo da sua história, a ENIDH tem procurado melhorar continuamente a qualidade da sua formação, reestruturando seus cursos e lançando novas ofertas formativas sempre que considerou necessário às necessidades do setor para o qual está vocacionada, para além de ir adquirindo ao longo dos tempos novos equipamentos para laboratórios e simuladores, de modo a responder às necessidades crescentes de formação e treino dos seus estudantes. Para além da aposta numa formação de elevada qualidade, a ENIDH tem vindo a procurar dinamizar as suas atividades de investigação, de cooperação internacional e de prestação de serviços à comunidade. Atualmente, liderar a Escola com cerca de 800 estudantes e mais de 110 colaboradores, constitui um enorme desafio para manter ativa, dinâmica e inovadora a única instituição de ensino superior público de formação na área marítima-portuária existente a nível nacional.

Num mundo cada vez mais digital, quais os grandes desafios de uma instituição que se destaca (e quer continuar a destacar-se) em termos de reputação e empregabilidade?

A ENIDH tem vindo a dar passos muito importantes na área da digitalização. Para o efeito, tem vindo a desenvolver um programa ambicioso de modernização das suas redes e sistemas informáticos, de modo a adaptar-se às novas tecnologias digitais. Nesta altura, já reestruturamos a rede informática da Escola, e iremos em breve equipar todas as salas de aula com computadores com capacidade para lecionação à distância. Já instalámos um número significativo de sistemas de videoconferência para possibilitar a realização de aulas, reuniões, seminários e conferências em streaming. A título de exemplo, podemos referir que as duas últimas sessões comemorativas do Dia da Escola, foram transmitidas em direto no nosso canal do youtube. As conferências dos projetos eShip e MarinSim com financiamento EEA GRANTS, foram realizadas em formato híbrido (presencial e à distância), o que atesta a nossa capacidade de utilização das novas tecnologias digitais, apesar do contexto difícil que temos vivido devido à pandemia.
Relativamente aos novos desafios que se colocam à instituição num mundo cada vez mais digital, estes prendem-se fundamentalmente com a introdução de novos conteúdos nos currículos dos cursos sobre temas como a digitalização e a descarbonização na atividade marítima, entre outros. Tratam-se de temas que estão na ordem do dia e que irão continuar a merecer a melhor atenção da ENIDH, tendo em consideração as rápidas transformações que estão a ocorrer no setor marítimo-portuário.
Estamos também a participar em diversos projetos de investigação que têm a digitalização como tema chave, nomeadamente os projetos SmartSea, eShip, MarinSim, Monitraffic, AT-Virtual e Sea2future, entre outros.
A aposta ativa da Escola no digital visa capacitar os nossos estudantes com competências acrescidas nesta área, de modo a que possam enfrentar o mundo do trabalho com maiores qualificações, contribuindo deste modo para o desenvolvimento da Economia Azul.

A digitalização acelerada pressiona a transformação e a criação de novos perfis funcionais e laborais – como encara a ENIDH esta forçosa adaptação?

A Escola tem vindo a apostar em novas ofertas formativas que se enquadram no desenvolvimento de novas tecnologias e perfis funcionais para o setor marítimo-portuário. Neste âmbito, iniciámos em 2016 a licenciatura em Engenharia Eletrotécnica Marítima, que visa formar oficiais eletrotécnicos para navios com instalações elétricas de alta tensão, nomeadamente navios de cruzeiro, e que corresponde a um novo perfil de oficial da marinha mercante criado pela Organização Marítima Internacional (IMO), na sequência da revisão da Convenção STCW de Manila em 2010. Para além destas ofertas formativas, a ENIDH tem também a funcionar à alguns anos e com enorme sucesso, o curso técnico superior profissional de Redes e Sistemas Informáticos. Este ano, apresentámos à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) uma nova licenciatura na área das competências digitais (Engenharia Informática e Computadores), que, caso venha a ser acreditada pela Agência, poderá entrar em funcionamento no próximo ano letivo.
Nos últimos anos, a Escola tem vindo a fazer um enorme esforço de recrutamento de docentes mais jovens e com melhores qualificações académicas e profissionais, de modo a corresponder às exigências da A3ES para a acreditação dos cursos. Deve notar-se que a ENIDH tem todos os seus cursos superiores de licenciatura e mestrado acreditados pela Agência. Para além deste facto muito relevante para a instituição, os cursos de formação para oficiais da marinha estão igualmente acreditados pela Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA).

Temas como a descarbonização, a desmaterialização de procedimentos ou as disrupções logísticas criadas pela pandemia impactam o Shipping – de que forma é que isto pode influenciar a oferta letiva da Escola e os desafios dos docentes?

A ENIDH está a participar ativamente em diversos em projetos de investigação aplicada que abordam estas temáticas. A título de exemplo, podemos referir o projeto “GreenShip” recentemente aprovado pelo Programa EEA GRANTS. Este projeto, desenvolvido em parceria com a USN – University of South-East Norway visa desenvolver conteúdos sobre shipping sustentável em cursos de mestrado de ambas as instituições. A Escola está igualmente a cooperar na candidatura de um projeto de investigação liderado pela universidade norueguesa NTNU sobre sistemas de propulsão mais eficientes e com menor pegada carbónica.
Ao nível da capacitação da Escola com novos equipamentos, podemos destacar a entrada ao serviço de alguns dos novos simuladores marítimos, no âmbito do projeto MarinSim, extremamente avançados e dotados de grandes capacidades digitais.
Ao nível do cooperação com outras instituições de ensino superior, podemos destacar, no âmbito do protocolo estabelecido entre a ENIDH e a Escola Naval (EN), as iniciativas conjuntas que visam proporcionar aos estudantes do Mestrado Integrado em Engenharia Naval-Ramo de Armas e Eletrónica da EN a frequência de cursos da Cisco Networking Academy (Academia Cisco da ENIDH), que têm ocorrido nos últimos anos na Escola.
A nível de cooperação internacional, poderemos destacar a participação de docentes da ENIDH em módulos do mestrado “Smart Maritime & Surveying Systems“, desenvolvido no âmbito do projeto de investigação SMARTSEA, financiado através do Programa Erasmus+.

A ENIDH não tem sido indiferente a estas temáticas, tendo em andamento vários projetos internos ou parcerias – quão vital é acompanhar estas tendências?

É fundamental acompanhar estas tendências. Para o efeito, estamos a cooperar em diversos projetos com as universidades noruegueses NTNU e USN, que têm grande prestígio na área marítima. Esperamos através da participação nestes projetos conjuntos, reforçar e transferir competências nas áreas de formação e da investigação. Estamos também a desenvolver parcerias na formação avançada, ao nível de doutoramentos em áreas como a descarbonização no transporte marítimo, de que é exemplo a ETSNM – Escola Técnica Superior de Náutica e Máquinas da Universidade da Corunha. Na área de gestão portuária, estabelecemos recentemente um protocolo de cooperação com uma fundação da Universidade do Sul de Santa Catarina, Brasil, visando o desenvolvimento de ofertas formativas conjuntas na área da gestão portuária.
Ainda no ano de 2021, firmámos protocolos de cooperação com universidade de países lusófonos, nomeadamente a Universidade Técnica do Atlântico (Cabo Verde) e a Universidade do Namibe (Angola). A ENIDH irá disponibilizar apoio técnico e científico bem como formação especializada de modo a melhorar a capacitação dos seus estudantes e docentes.

Projetos como o eShip, MARineSIM ou o Sea2Future espelham a aposta da ENIDH na Inovação aplicada ao transporte marítimo – em que fase se encontram?

Novo simulador de carga e Descarga de navios tanque (Projeto MarinSim)

Estes projetos são muito importantes para a dinamização das atividades de investigação da Escola. O projeto eShip já está numa fase avançada de execução, tendo na conferência organizada recentemente na Escola sobre o projeto, sido apresentadas alguns resultados do trabalho realizado. Relativamente ao projeto MarinSim, concluiu-se em novembro a instalação do novo simulador de operações de carga e descarga de navios tanque, e recentemente foi efetuada a atualização do hardware e software do simulador de comunicações marítimas (GMDSS). Até abril de 2022, irá ficar concluída a instalação dos restantes simuladores (navegação e máquinas marítimas). O projeto Sea2future, é um projeto inovador financiado por empresas do setor marítimo-portuário, que já deu origem a diversas publicações científicas e um protótipo de embarcação autónoma, testada com sucesso na piscina da ENIDH. A embarcação esteve exposta nos eventos “Noite Europeia dos Investigadores” e “Festival Internacional de Ciência (FIC.A)”, organizados pelo Município de Oeiras, tendo sido muito apreciada pelo público visitante. Este projeto, desenvolvido por docentes e estudantes dos cursos de engenharia da ENIDH, é um exemplo demonstrativo da excelente capacidade de investigação do corpo docente da Escola em diversas áreas do conhecimento.

Entre os protocolos firmados, destaca-se a parceria com a Mystic Cruises – qual a importância da associação da escola com uma empresa tão dinâmica quanto esta?

Trata-se de um protocolo muito importante, tendo em conta a dinâmica que esta empresa está a ter, quer na construção de novos navios de cruzeiro oceânicos quer na aquisição de navios de cruzeiro usados. A cooperação tem sido excelente e pretendemos continuar a aprofundá-la no futuro. Os navios de cruzeiro empregam muitos oficiais e os navios da classe “Explorer” construídos em Viana do Castelo, têm a particularidade de embarcar oficiais eletrotécnicos, dado estes navios disporem de instalações de alta tensão, ou seja, acima de 1000 V. Por outro lado, estes navios dispõem de mais camarotes para a tripulação, o que permite embarcar um maior número de praticantes. Recentemente, e no âmbito do projeto MarinCadet que atribui bolsas a estagiários dos cursos marítimos, a Mystic Cruises disponibilizou-se a aumentar o número de estagiários a bordo dos seus navios.

A escassez de oficiais tem-se agravado com a pandemia – de que forma pode este cenário realçar a importância da ENIDH na construção do futuro do Shipping?

A escassez de oficiais da marinha mercante é uma situação crónica e que se tem vindo a agravar-se nos últimos anos, conforme documentado em diversas publicações especializadas sobre estes assuntos. Esta escassez acentua-se no caso dos oficiais de máquinas, devido ao facto de serem muito procurados em terra, o que faz com que abandonem a carreira marítima ao fim de alguns anos de atividade no mar. Consciente da necessidade de aumentar a formação marítima, a Escola tem procurado aumentar a divulgação dos seus cursos de modo a captar mais estudantes para os seus cursos, particularmente naqueles onde existe um maior défice de candidatos.
No que diz respeito à realização de estágios para diplomados dos cursos marítimos, tendo em conta que os apoios de Estado aos armadores para embarcarem praticantes terem cessado em 2011, demos recentemente um passo muito importante com a aprovação do projeto MarinCadet pelo Fundo Azul. Este projeto, no valor global de 875.000€ vai financiar 40 bolsas de estágio de um ano para licenciados dos cursos marítimos. Este projeto irá certamente ajudar a promover uma maior atratividade dos candidatos ao ensino superior pelos cursos marítimos da ENIDH, que são de fundamental importância para o país e para os quais a taxa de empregabilidade é muito próxima dos 100%.

Na sua opinião, quais os motivos que justificam este fenómeno de escassez de candidatos aos cursos marítimos?

Hoje em dia, os jovens procuram outras profissões que têm mais impacto junto do público e dos meios de comunicação social. A profissão de oficial da marinha mercante implica deslocações para fora da residência durante alguns períodos e onde o acesso aos meios digitais, nomeadamente à Internet poderá não existir ou variar consoante as condições oferecidas pelos armadores. Por outro lado, as profissões marítimas são pouco conhecidas pela generalidade dos jovens, devido à falta de divulgação da atividade marítimo-portuária nos meios de comunicação social. Para mitigar este problema, seria da maior utilidade que os organismos públicos com responsabilidades na área do mar promovessem a curto prazo uma ação concertada e de grande amplitude de divulgação das profissões marítimas, em particular nas escolas secundárias, de modo a aumentar o conhecimento dos jovens por estas profissões.

Em jeito de balanço: como avalia o ano letivo de 2020/2021, em termos de captação de novos estudantes e de diplomados, perante a dura situação pandémica?

No ano letivo de 2020/2021, apesar da conjuntura difícil que vivemos provocada pela pandemia, conseguimos aumentar o número de novos estudantes e mantivemos sem grande variação o número global de diplomados. Em 2020/2021 ingressaram para todos os cursos da Escola cerca de 300 novos estudantes, o que se traduziu num acréscimo de 2,6% no número global de estudantes da Escola. Relativamente aos diplomados, manteve-se o número global em cerca de 150, sendo de destacar, no caso das licenciaturas, 28 diplomados em Pilotagem, 32 em Engenharia de Máquinas Marítimas, 10 em Engenharia Eletrotécnica Marítima, 34 em Gestão de Transportes e Logística e 15 em Gestão Portuária.
Apesar das condições difíceis em que decorreu o ano letivo, com grande parte das aulas a ser ministrada à distância, conseguimos terminar com sucesso o ano letivo, o que permitiu que os estudantes concluíssem o seu percurso académico.

Como decorre o arranque da parceria firmada entre a ENIDH e o Município de Oeiras? Que procedimentos foram já encetados?

A parceria está a decorrer de forma muito positiva. Temos vindo a beneficiar do apoio do Município na realização de algumas melhorias no campus escolar, nomeadamente na repavimentação dos arruamentos, tratamento dos espaços exteriores e colocação de um novo letreiro luminoso no Edifício Principal. Estamos atualmente a desenvolver um protocolo de cooperação específico para utilização da piscina pelos munícipes do Concelho. Estamos também a desenvolver contactos tendo em vista a participação em projetos conjuntos ao abrigo de programas de financiamento, nomeadamente o PRR – Plano de Recuperação e Resiliência. Temos igualmente vindo a participar em iniciativas patrocinadas pelo Município de Oeiras, nomeadamente da Oeiras Valley. Participamos também na primeira edição do FIC.A realizada no passado mês de outubro, que contou com a visita do Ministro do Mar e que teve bastante sucesso junto do público visitante. Deve notar-se que esta parceria com o Município de Oeiras é muito abrangente e prevê a aplicação de um conjunto de investimentos na Escola até 2025, num valor global que poderá ascender até 4 milhões de euros.

A Economia do Mar passará pela implementação de um paradigma azul, digitalizado e descarbonizado, explicado já pelo Ministro do Mar – de forma pode a ENIDH integrar-se nesta nova filosofia? Que investimentos poderemos esperar?

Visita do Ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, e da Diretora Geral da Política do Mar, Helena Vieira, ao espaço da ENIDH no FIC.A – Festival Internacional de Ciência

Nos próximos tempos, é imprescindível aproveitar os financiamentos disponibilizados pelo PRR para desenvolver e fazer crescer a instituição. Para o efeito, com a colaboração do Ministério do Mar, a Escola conseguiu ficar incluída no projeto “Blue Hub School” da componente 10 – MAR do PRR, com uma dotação global de 7,5 milhões de euros. Estes investimentos destinam-se a reequipar e modernizar os laboratórios, simuladores e infraestruturas informáticas da Escola, bem como viabilizar a construção de um novo centro internacional de treino em segurança marítima. Para além destes investimentos, a ENIDH pretende concorrer aos avisos do PRR para modernizar a sua residência estudantil e melhorar a eficiência energética de edifícios do campus escolar. Trata-se de um conjunto de investimentos que, caso venham a ser aplicados sua globalidade, irão traduzir-se num volume de financiamento nunca antes efetuado na Escola.
Perante este quadro bastante favorável, julgo estarem criadas as condições necessárias para que a ENIDH dê a curto/médio prazo um salto qualitativo e quantitativo muito relevante, que irá ter reflexos extremamente positivos no crescimento da nova Economia Azul.

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