Luís Baptista presidente ENIDH

Luís Baptista (ENIDH): «Queremos estreitar a relação com o Registo de Navios da Madeira»

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Luís Baptista está a cumprir os últimos dias do actual mandato enquanto presidente da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH). Em entrevista à Revista Cargo, o presidente da Escola Náutica (que se vai candidatar a novo mandato!) faz um balanço «bastante positivo» dos quatro anos que passaram, recorda a obra feita e fala do que falta ainda fazer – onde se destaca a vontade de «estreitar a relação» com o Registo de Navios da Madeira (RIN-MAR), para abrir o leque de oportunidades de embarque de praticantes.

REVISTA CARGO: Está perto de terminar o actual man­dato como presidente da ENIDH. Que balanço faz destes quatro anos?

LUÍS BAPTISTA: Faço um balanço bastante positivo. Partimos para este mandato com o objectivo de abrir a Escola ao exterior, através da internacionalização e ligação aos players do sector marítimo-portuário, melhorar as condições de ensino e de aprendizagem e adequar a formação da Escola aos novos desafios para o sector marítimo-portuário. Por outro lado, partimos de uma situação em que não tínhamos Erasmus na Escola, existiam edifícios que precisavam de um conjunto de obras muito significativas, era neces­sário aumentar a captação de receitas próprias para combater a falta de recur­sos, entre outros. Recebemos cada vez menos dinheiro do Orçamento de Estado, uma tendência que se acentuou com o anterior Governo. Com o actual Governo conseguimos, pelo menos, estabilizar o valor da dotação orçamental. Mas o valor que recebemos é claramente insuficien­te para as nossas necessidades, daí a necessidade de aumentar as receitas próprias.

Como foi conseguido esse aumento das receitas próprias?

Com a realização de cursos de for­mação profissional que são necessários para os oficiais da marinha mercante – que são o nosso core business em termos de formação superior – e também para empresas que nos procuram para realizar acções de formação de que necessitam para os seus quadros. As outras fontes de receita própria são as propinas e os alugueres de espaços.

Por outro lado, lançámos ofertas for­mativas conjuntas com outras escolas e até mesmo com empresas, onde se destaca o Curso de Especialização em Logistics & Port Mangament que fizemos com a MSC Portugal, e que deu origem à Academia MSC/ENIDH. Essa iniciativa teve um enorme sucesso nas suas duas primeiras edições, onde conseguimos uma taxa de empregabilidade bastante alta dos diplomados, acima dos 90%.

Criámos também os chamados CTeSP – Cursos Técnicos Superiores Profissionais, incentivados pelo Governo, embora aqui estejamos dependentes do financiamento que se comprometeram a atribuir-nos, mas que até ao momento ainda não foi pago.

Destaco também o novo perfil de Oficial da Marinha Mercante que é o do Oficial Eletrotécnico (Electrotechnical Officer) e que deu origem à nova Licenciatura em Engenharia Electrotécnica Marítima, que arrancou o ano passado.

Todo este trabalho realizado na área formativa levou a que tenhamos neste momento um número total de alunos que rondará os 750 alunos.

Quantos alunos tinha a ENIDH no início deste mandato?

Eram cerca de 720, se contarmos ape­nas com os alunos inscritos nas Licencia­turas, Mestrados e CETs. Não subimos tanto quanto gostaríamos, mas pelo me­nos conseguimos contrariar a tendência de redução do número de alunos que se verificou no ensino superior, devido à crise que atingiu o país nos últimos anos. E aqui incluem-se os novos alunos do Erasmus+, programa que iniciámos pela primeira vez em 2015. Hoje, já te­mos uma boa capacidade de receber e enviar alunos e os próprios docentes já realizam esse tipo de intercâmbio com outras escolas. Isto é muito importante, pois permite um alargar de horizontes ao conviver com outras realidades e outras práticas, algo que é sempre benéfico para a instituição e para as pessoas.

Falou das obras feitas nas infraestruturas da ENIDH. Que trabalho foi feito?

Temos trabalhado em várias frentes, no ginásio, na piscina, no edifício dos alojamentos que são uma grande preo­cupação, na substituição da canalização de abastecimento de água, etc… Encontrámos muitos problemas! No próprio edifício principal, temos tido a preocupação de substituir iluminação antiga por iluminação LED, a bibliote­ca foi completamente remodelada, as salas de aula contam hoje em dia com projectores multimédia fixados ao tecto, os laboratórios também na sua maioria…

Destaco ainda a instalação dos serviços administrativos que estavam disper­sos no edifício 2 e que passaram para o edifício principal, ganhando-se assim eficiência e produtividade pela proximi­dade entre todos.

A internacionalização da ENIDH também tem sido uma das vitórias desta direcção, certo?

Sem dúvida, é a parte que mais satisfa­ção me dá. Esse tem sido um objectivo da nossa gestão e temos feito os possíveis para divulgar a escola internacionalmen­te. Já possuímos brochuras dos cursos em formato bilingue e, muito brevemente, o nosso website vai passar a ter também uma versão em língua inglesa.

O programa Erasmus veio trazer uma grande dinamização a essa componente e, com a assinatura do protocolo que fizemos com Instituto de Formação e Aproveitamento dos Recursos Humanos do Panamá (IFARHU), trouxemos no ano passado 35 alunos panamianos para as nossas Licenciaturas, Mestrados e Cur­sos Técnicos Profissionais.

Tudo isso permitiu que o conjunto de alunos não portugueses passasse de 60 em 2016 para quase 104 no corrente ano. E esse é um número significativo numa escola com 750 alunos, são cerca de 14%, o que se traduz também em novos desafios e novas formas de trabalhar, nomeadamente pela necessidade de mi­nistrar aulas em inglês. E vejo os alunos do Panamá muito satisfeitos, integrados e vontade por parte do Panamá em trazer mais alunos este ano.

Há disponibilidade na ENIDH para re­ceber mais alunos do Panamá?

Estamos a trabalhar nisso. Nós temos 20% das vagas de licenciatura reserva­das para alunos internacionais e temos tido muito interesse de candidatos do Brasil que querem vir para cá fazer a sua formação. Isto porque no Brasil só existem duas escolas náuticas, o que é muito pouco para um país daquela dimensão. Há muita falta de oferta e os brasileiros têm procurado a ENIDH para fazer a sua formação, tanto de Licencia­turas como de Mestrados.

De que forma é que a ENIDH tem con­seguido recuperar esse prestígio?

É um trabalho que tem sido feito na divulgação da Escola, nomeadamente em jornais ou revistas como é o caso da Revista Cargo. Mas também nas redes sociais, no nosso website, através de brochuras, é um trabalho diário. E tam­bém temos tido uma participação cada vez mais consistente na feira Futurália, onde tivemos este ano um stand de 36m2 e com um simulador de navegação que cria grande impacto a quem lá passa. A terminar o mandato, o objectivo passa por continuar e seguir esse caminho feito até aqui?

Claro que há vontade de continuar. É verdade que estamos a falar de uma escola pública, com todos os cons­trangimentos legais, financeiros, etc… inerentes. Não podemos gastar o que gostaríamos, não temos os financia­mentos que gostaríamos… E temos um parque escolar com alguma degradação, que precisa de investimentos na sua recuperação. Ainda falta fazer muita coisa e é nossa intenção avançar com candidaturas para financiamentos que visam melhorar a eficiência energética dos edifícios. É todo um trabalho que não se esgota num mandato porque es­tamos condicionados pelos prazos das candidaturas … Há momentos próprios para avançar e pretendo continuar para dar seguimento a esse trabalho.

Sente que o trabalho de valorização da ENIDH também tem sido reconhecido pelo sector?

Sem dúvida! Tenho tido a oportunidade de ouvir os parceiros do sector, desde ar­madores a outras empresas, associações e todos os demais agentes que trabalham para o sector marítimo-portuário. E todos me dizem que a ENIDH voltou a ter um grau de reconhecimento muito superior, existe hoje no exterior uma percepção muito positiva da Escola.

As pessoas já reconhecem a Escola e esta está a interagir com o sector. A ENIDH já consegue ter empresas muito próximas, como é o caso da Rebonave que realizou na ENIDH um seminário técnico dedicado ao reboque marítimo – algo que julgo nunca ter acontecido! Tudo isso contribui para uma percepção positiva da instituição e para um reco­nhecimento cada vez maior da escola no exterior. São os próprios agentes do sector que estão satisfeitos com o rumo que estamos a seguir, não há melhor indicador para nos dizer que este é o caminho certo.

Teve a sensação, quando entrou para presidente, que a ENIDH estava des­valorizada junto do sector?

O que percebi é que havia pouca li­gação entre a Escola e o sector, pouca interacção com o exterior. E foi um tra­balho exigente o que fizemos. Passou por participar em eventos, interagir com os players, fazer muitas reuniões. Tudo está relacionado com a dinâmica que se colocou, um trabalho árduo e que muitas vezes não se vê. É um trabalho diário! Mesmo em período de férias, é preciso estar sempre disponível. É um trabalho que faço com todo o gosto pois é um trabalho que sempre desejei, de dar projecção à Escola, dinamizá-la, tornar a Escola num player importante para o sector onde estamos inseridos… Ainda recentemente tivemos mais um grande reconhecimento, do Grupo Sousa, um armador com o qual conseguimos ce­lebrar um protocolo para embarque de praticante nos seus navios, algo que não acontecia até essa altura. Trata-se de um trabalho e uma colaboração muito posi­tiva com um grande armador nacional, o que nos deixa muito satisfeitos.

Todas essas novas parcerias ajudam a melhorar a taxa de empregabilidade, que é um dos grandes indicadores da ENIDH, certo?

Sim, sem dúvida. Temos estabelecido imensos protocolos, sobretudo na área portuária e relacionados com os Cursos de Gestão de Transportes e Logística e Gestão Portuária. São protocolos com empresas que procuram os nossos alu­nos assim que estes terminam os seus cursos. Muitas vezes, antes de terminar o curso, os alunos já estão a estagiar.

E a ENIDH consegue dar resposta à procura que existe no mercado?

Não, porque infelizmente não conse­guimos formar o número de diplomados que o mercado necessita. Essa é uma vertente que queremos melhorar e, se possível, começar a produzir mais di­plomados. Não temos dúvidas que há mercado e que o mercado necessita dos nossos diplomados. Especialmente no sector portuário há todo o interesse em virem buscar diplomados à ENIDH pois são jovens que já estão familiarizados com a linguagem utilizada no meio ma­rítimo, sabem o que é um navio, sabem o que são as operações portuárias, nor­mas, legislação específica, etc. É uma bagagem que um diplomado de um curso tradicional de outra escola superior não tem. Os nossos alunos já entram com essa vantagem, mais rapidamente come­çam a ser produtivos e os empregadores sabem disso.

Preocupa-o ver o Registo Convencional de Navios a perder quase todos os seus navios?

Não nos podemos esquecer que o Re­gisto da Madeira (RIN-MAR), que tem quase 500 navios, precisa de imensos marítimos qualificados. Mas, infelizmente, ainda não estamos a conseguir criar a ligação com esse registo para integrar os nossos diplomados. É um dos gran­des objectivos para o próximo mandato, queremos estreitar essa ligação para que esses navios possam aceitar os nossos praticantes. Porque, na verdade, são na­vios que ostentam a bandeira portugue­sa, portanto falta apelar à sensibilidadedos agentes do setor de forma a criar um clima mais favorável no sentido de poder canalizar para esses armadores os nossos praticantes. Se os conseguirmos colocar lá, estou certo que vão querer ficar com eles.

A colocação no transporte marítimo internacional até já acontece, no âmbito do Programa Erasmus, com um proto­colo que temos com o armador alemão Hamburg-Süd, que permitiu aos nossos praticantes receberem um financiamento através do Erasmus para que possam embarcar. É algo até interessante para o armador pois reduz os seus custos. E já canalizamos cerca de 12 diplomados para realizar estágios nestes navios, e al­guns deles acabaram por ser contratados.

O que falta para conseguir essa ligação da ENIDH ao Registo da Madeira?

Acho que falta diálogo entre os orga­nismos nacionais e o Registo da Madeira. Há uma falta de sensibilidade no sentido de cativar os armadores internacionais para receberem os nossos diplomados.

Até porque estes navios, tendo bandeira portuguesa, deverão ter uma quota de marítimos portugueses, certo?

Sim, uma quota de 30% e que já foi de 50%. Mas o que acontece é que os armadores internacionais pedem certi­ficados de dispensa para embarcar os marítimos que pretendem. Basicamente, nestes casos pedem dispensa de em­barcar marítimos portugueses. Como não há marítimos nacionais em número suficiente, os armadores acabam por nunca preencher essa quota.

Os dados que tenho é que há dois anos a quota de marítimos portugueses andava pelos 8% mas que deve ser hoje ainda mais reduzida, talvez na ordem dos 5%.

Um estudo da BIMCO revela que há uma grande falta de profissionais nes­te sector. É mais uma demonstração da importância do papel de uma entidade como a ENIDH?

É verdade. O estudo aponta para que em 2025 exista um défice de 150.000 oficiais no mundo inteiro, 80.000 dos quais da área da engenharia.

Portanto, temos todo o interesse em aumentar a oferta de diplomados dos cursos marítimos! Temos a garantia de que há capacidade para que esses diplomados possam ser integralmente absorvidos pelas marinhas mercantes, sobretudo as comunitárias que são aque­las que nos interessam mais.

Este artigo é parte integrante da edição nº 268 da Revista Cargo

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