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Luís Baptista (ENIDH): «Automação dos navios não se colocará nos próximos anos»

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Um dos destaques da entrevista que Luís Baptista concedeu à Revista Cargo foi para o futuro da formação na ENIDH e como é que a Escola Náutica se está a preparar para o surgimento de novas abordagens nesta área.

Fique com a segunda parte da entrevista:

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Como é que a ENIDH se está a pre­parar no campo da tecnologia, nomea­damente no que diz respeito aos investimentos em novos equipamentos?

Não havendo disponibilidade orça­mental para investir em novos equipa­mentos, em simuladores, em laborató­rios, etc. a única hipótese que temos é procurar obter fundos europeus. Esse foi, de resto, uma das primeiras inicia­tivas desta direcção, procurar saber as várias possibilidades de obtenção de fundos comunitários. Nesse âmbito, conseguimos que nos fosse atribuído um projecto com fundos doados pela Noruega, Islândia e Liechtenstein, os designados EEA Grants. Nesses fundos, entre 2018 e 2021 Portugal vai receber um pacote de 38 milhões de euros, sen­do que a ENIDH candidatou-se a um financiamento de 2 milhões de euros para reequipamento de simuladores e outros equipamentos necessários à formação marítima. Foi uma aposta ga­nha, já foi assinado um memorando de entendimento em que esse projecto foi contemplado. Esta é uma oportunidade única para actualizarmos os nossos simu­ladores, actualizarmos tecnologicamente, prepararmo-nos para as novas tecnologias emergentes como a dos motores de navios com controlo electrónico, queima de gás natural como combustível de ma­rinha, propulsão eléctrica de alta tensão, todo este conjunto de tecnologias que estão a ser desenvolvidas hoje em dia. Nós precisamos de tê-las nos nossos simuladores e só através destes fundos é que tal será possível.

ministro moçambique enidhPor outro lado, também nos candida­támos ao programa de fundos comuni­tários Lisboa 2020, tendo já recebido uma primeira resposta positiva, para um valor global de 350.000 euros, para reequipar a Escola com sistemas infor­máticos, equipamentos de segurança marítima, etc.

Preocupa-o, como Presidente da ENIDH, que os avanços tecnológicos substituam as pessoas?

Fala-se muito em navios autónomos e que eles vão invadir o mercado mun­dial, mas é um cenário extremamente prematuro ainda. Temos entre 60 e 70 mil navios a navegar no mundo inteiro e um navio porta-contentores pode custar mais de 200 milhões de euros. Um arma­dor não pode simplesmente descartar os navios que tem de um momento para o outro. Isso seria abdicar de toda uma frota existente e investir ainda mais em navios que serão ainda mais caros pelas tecnologias que terão incorporadas. E ainda temos os custos dos sistemas de controlo em terra e dos operadores que serão bem pagos, pessoas tecnicamente bem preparadas custam caro.

A mudança que se fala será de tal forma complexa que o problema não se colocará nos tempos mais próximos. Isto no caso dos navios oceânicos, porque no caso dos ferries, navios que naveguem em rios, canais ou estuários parece-me mais provável que a mudança comece a fazer-se mais no curto prazo.

Temos o caso da aviação civil, onde há muitos anos se fala de aviões autó­nomos. Li um estudo que mostrava que as pessoas não se importam de pagar mais desde que o avião tenha piloto. O factor humano continua a ser muito importante. Há muitas decisões que têm de ser tomadas na hora e se não for o ser humano a decidir o sistema auto­mático pode não conseguir resolver. Os sistemas não têm ainda a capacidade de improvisação numa situação de risco.

Por tudo isso, acho que devemos ter calma. É claro que não devemos ig­norar o assunto porque há soluções e estudos muito interessantes. Mas não será, seguramente, uma mudança que se fará na nossa geração.

Quando o dia chegar, acredita que o sector conseguirá adaptar-se de for­ma a criar novos postos de trabalho?

Terá que se reinventar. O problema é que quando isto acontecer, será inevitá­vel a perda de muitos postos de trabalho, visto o grande objetivo da automação ser esse mesmo. E isso é algo que nos preocupa, como entidade formadora. Gostávamos que essa mudança não fosse tão drástica.

Os alunos já começam a demonstrar essa preocupação?

No caso dos alunos, sinto que ainda não estão muito por dentro destes as­suntos e vão reagindo às notícias que vão lendo, que não passam ainda de projectos-piloto, entre outros. São projectos experimentais mas há um alarmismo da parte deles com as coisas que vão aparecendo, e que nós tentamos ir es­clarecendo da melhor forma possível, de modo a evitar que desistam da carrei­ra na marinha mercante. Não podemos esquecer-nos que o Mar é um recurso que devemos aproveitar ao máximo para aumentar a riqueza do país.

PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA AQUI

Este artigo é parte integrante da edição nº 268 da Revista Cargo

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