Mário de Sousa Portocargo entrevista

Mário de Sousa abriu o livro à Revista Cargo e falou sobre o sucesso consolidado da Portocargo

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Mário de Sousa Portocargo entrevistaO conturbado ano de 2020 trouxe múltiplas simbologias para a Portocargo, não só pelo marco temporal de 3o anos de actividade da empresa portuguesa, como também pelo épico desafio originado pela pandemia de COVID-19. Em ambos os aspectos, a empresa portuguesa pode olhar para trás com orgulho – basta conversar com o administrador Mário de Sousa para o perceber. Foi precisamente isso que a Revista Cargo fez: numa extensa entrevista, procurámos dar voz a uma das operadoras lusas que esteve na primeira linha do combate à crise sanitária, prestando apoio logístico essencial à acção médica e hospitalar. Uma estóica e heróica maneira de celebrar três décadas de resiliência e sucesso.

 

Revista Cargo: O presente ano marca o 30º aniversário da Portocargo – quais eram, inicialmente, as expectativas para 2020, e de que forma estas foram afectadas pelo surto pandémico?

Mário de Sousa: Para 2020, projectámos a consolidação deste volume de negócios, através de uma melhoria contínua dos serviços que prestamos aos nossos clientes. Na Portocargo, o objectivo nunca passa pela escalabilidade do negócio, porque essa não é a identidade da empresa. Focamo-nos na personalização, na qualidade da solução que oferecemos ao nosso cliente, e que responde às suas necessidades específicas. O crescimento registado na facturação tem sido uma consequência natural desta forma de abordar o mercado, pelo que este continuará a ser o nosso mindset.

Três décadas de história no mercado – como caracteriza a evolução e o progresso da Portocargo, e quais os marcos/desafios mais simbólicos neste já longo percurso?

A estratégia delineada para a Portocargo, há três décadas, mantém-se inalterada. Baseia-se em quatro pilares, sendo dois operacionais e dois de conduta: nichos de negócio e nichos de mercado; seriedade e profissionalismo.

Foi esta abordagem que nos conduziu a atingir esta simbólica marca, que não é comum nas PME portuguesas. Uma forma de percepcionar o mercado e o negócio que nos tem permitido registar uma evolução constante e somar diversas vitórias, ano após ano. Uma história bonita e colectiva, que inclui os nossos actuais 41 colaboradores, mas também todos aqueles que ao longo destes 30 anos contribuíram para o progresso da nossa organização, desde anteriores colaboradores, a clientes e parceiros.

Portocargo aviãoPenso que a herança mais feliz destas três décadas são precisamente os relacionamentos que mantemos com clientes e parceiros. É significativo notar que 73% da nossa actual carteira de clientes se mantém há mais de uma década, que vários são os clientes que connosco estão desde a fundação em 1990 e que os nossos principais parceiros, a nível mundial, cooperam connosco há quase 30 anos. Estes dados são bem representativos da forma como percepcionamos os nossos stakeholders e a valorização que atribuímos às relações que construímos.

Ao longo de 30 anos, são muitas as operações, desafios e marcos. As memórias mais céleres são sempre as mais recentes, pelo que destacaria a missão realizada, no passado mês de Março, e que permitiu abastecer o nosso país, a partir da China, com 80 toneladas de material médico e de protecção. Realizada a bordo de um Antonov NA – 124, o segundo maior avião de carga do mundo, e perante constrangimentos de tempo e logísticos verdadeiramente sem precedentes, o sucesso desta operação conferiu-me um grande orgulho e felicidade, por perceber o papel que estávamos a assumir numa das maiores crises humanitárias da História.

O surgimento da pandemia obrigou as empresas a adaptações súbitas e à definição de respostas logísticas personalizadas – como encarou a Portocargo este duro fenómeno?

Acredito que a forma como abordávamos a nossa actividade antes da pandemia foi fundamental para a resposta que conseguimos dar aos desafios por ela criados.

Dividiria em três vértices a nossa actuação durante este período. O primeiro diz respeito à customização. O facto de não trabalharmos com modelos estanques nem standardizados, permitiu-nos ser muito ágeis na adaptação aos novos constrangimentos causados pela pandemia e pelas restrições impostas pelos diferentes Governos. A nossa abordagem saiu ainda mais reforçada: construir soluções específicas, que respondam às necessidades exactas da mercadoria e do cliente, e acompanhar, com grande proximidade, toda a operação logística.

Este acompanhamento foi facilitado pelo segundo vértice: a digitalização. Esta situação sanitária veio confirmar a relevância e a indispensabilidade das ferramentas digitais, que vêm optimizar todas as operações entre todos os intervenientes da cadeia de abastecimentos. Ancorados na tecnologia, todos os nossos processos internacionais, independentemente da latitude ou do fuso horário em que se realizam, são monitorizados e acompanhados pelos nossos profissionais.

Finalmente, mas igualmente essencial, a confiança nas parcerias. Num período de fortes constrangimentos às deslocações internacionais, com respostas e medidas nacionais díspares em todo o Mundo, tem sido fundamental a solidez das sinergias que temos firmadas nos noventa mercados em que operamos. Em rede, temos conseguido superar todos os desafios que têm surgido e finalizado com sucesso todas as missões a que nos propomos.

Neste contexto de resposta logística à pandemia, quão importante foi o aprofundado conhecimento da Portocargo no mercado oriental no sucesso da estratégia da empresa?

O mercado chinês representa, habitualmente, cerca de 70% do volume de negócios da Portocargo com o continente asiático. É uma origem e um destino importantíssimo para nós, com o qual trabalhámos há três décadas e onde temos algumas das nossas mais sólidas e produtivas parcerias. Ora, num período em que a República Popular da China emergiu como a principal fornecedora de equipamento de protecção individual (EPI), levando ao expoente máximo a expressão “China – A Fábrica do Mundo”, a experiência e o know-how da Portocargo neste mercado foram absolutamente decisivos.

É um país muito particular, com características e desafios muito próprios, e que apenas a solidez e a confiança conferidas pelo trabalho conjunto de anos permitem superar. Foi por isso que, durante as semanas em que todos os países do Mundo e empresas logísticas procuravam ligações a partir dos aeroportos chineses, a Portocargo logrou coordenar, com sucesso, três das maiores operações realizadas, com destino a Portugal e a Cabo Verde.

Como decorreu a experiência inédita de gerir, simultaneamente, a actividade normal da empresa e as novas empreitadas logísticas decorrentes da pandemia?

Temos de perceber que é nos momentos de dificuldade que os parceiros e os clientes mais precisam de nós. Neste caso, havia um conjunto de necessidades, médicas e sanitárias, mas também de matérias-primas para a indústria, que era preciso suprimir. O que fizemos foi a organização habitual de tarefas e de operações, sem priorizar qualquer uma delas em detrimento das outras.

A Portocargo tem um compromisso com os seus clientes, e não colocamos qualquer nova operação, independentemente da dimensão, acima daquilo que é a nossa missão e dever para com aqueles que confiam em nós para assegurar a sua supply chain.

A verdade é que mesmo perante as enormes dificuldades deste período, as nossas operações nunca pararam. No sub-sector do transporte marítimo, que representa cerca de 70% da nossa facturação, as missões directamente relacionadas com a pandemia tiveram uma importância residual no total de mercadoria movimentada, durante estes meses.

A crise colocou à prova a resiliência das cadeias logísticas e a confiança entre empresas, parceiros e clientes – os players mais bem preparados saem reforçados deste desafio?

Em todas as crises, há empresas que acabam por desaparecer, outras que resistem e aquelas que saem reforçadas. A preparação é um termo difícil de definir, face a uma crise que nenhum investigador, governante ou analista conseguiu prever. Contudo, há, obviamente, factores que explicam a resiliência e a agilidade que algumas organizações demonstram e que outras não são capazes.

A digitalização é um desses exemplos, transversal aos diversos sectores de actividade. As empresas que estavam já a efectuar a transformação digital do seu negócio e da sua actividade conseguiram responder de forma muito mais ágil aos desafios provocados por uma pandemia que nos obrigou a gerir à distância processos, relacionamentos e actividades.

Nesta fase, é prematuro estabelecer conclusões acerca de uma pandemia que, infelizmente, está longe do seu término. É seguro, apesar disso, afirmar que todas as crises criam oportunidades e, sobretudo, novas formas de olhar o negócio. As operadoras logísticas que souberem perceber os ensinamentos deste desafio mundial estarão, indubitavelmente, mais capacitadas para uma eficaz aceleração no pós-pandemia.

Entre Janeiro e Maio, a Portocargo denotou um crescimento homólogo no volume de negócios – pode concluir-se que este desafio pandémico foi ultrapassado com total sucesso?

Conforme afirmei, é cedo para fazer um balanço de um fenómeno cujo fim é ainda incerto. Contudo, a grande satisfação que retiro destes primeiros meses é o reconhecimento da extrema qualidade e profissionalismo dos elementos que compõe a equipa da Portocargo. A dedicação que demonstram diariamente, e que foi particularmente notória nas semanas de confinamento, é verdadeiramente assinalável e merecedora deste reconhecimento público.

Se, como espero, dentro de alguns meses poderei estar a afirmar redondamente que superámos este desafio sem precedentes, tenho a certeza que é ao compromisso dos colaboradores e dos parceiros desta empresa que estarei agradecido. Com esta equipa, que soma a formação e a competência técnica a um raro espírito de missão, estou certo de que abraçaremos os muitos desafios que o futuro nos reserva.

Depois dos confinamentos avizinha-se uma dura recessão globalizada – de que forma poderão as empresas do sector combater a crise económica sem abdicar da qualidade?

A redução de custos que afretem a qualidade do serviço prestado é o maior erro que uma empresa pode cometer. Num período de crise, a exigência é ainda maior, e a margem de erro substancialmente menor. O rigor e a qualidade são fundamentais na sobrevivência a qualquer desafio económico.

A resposta às crises terá de passar necessariamente pela optimização de processos. Esta reestruturação contempla múltiplas vertentes, e a digitalização assume-se como uma das mais importantes.

Estou certo de que esta pandemia marcará, definitivamente, a penetração da tecnologia em todas as áreas e actividades da supply chain. As empresas que souberem demonstrar a agilidade para colocar a tecnologia ao seu serviço, dos clientes e parceiros, estarão na linha da frente do combate aos actuais desafios da crise que vivemos.

A Portocargo é mais do que uma referência nacional, marcando presença em cerca de 90 mercados – como é gerir toda este rede, e, ao mesmo tempo, mirar a meta do crescimento?

É uma gestão desafiante, mas natural e sustentada. Reflecte o crescimento que temos registado ao longo dos anos, que assenta na capacidade demonstrada pelas nossas equipas e nos novos objectivos e necessidades dos clientes. Temos acompanhado o processo de expansão e de internacionalização de muitos dos nossos clientes, o que me orgulha bastante.

Simultaneamente, tenho de voltar a destacar a importância das parcerias internacionais de que dispomos. Falamos de empresas que colaboram connosco praticamente desde que a Portocargo começou a operar. Isto transmite-nos uma grande confiança, que é um ingrediente fundamental nesta área de actividade. A complexidade das operações logísticas é cada vez maior, envolvendo múltiplos agentes, empresas e intermediários. O facto de conhecermos as equipas, a sua experiência e competência, de cada um dos stakeholders envolvidos é fundamental para assegurarmos o cumprimento dos prazos, da qualidade requerida e de todos os trâmites com que nos comprometemos.

Quais são as perspectivas e novos objectivos para o futuro da empresa?

A actual situação sanitária obrigou todas as organizações a reverem os seus planos de crescimento e objectivos. Se somarmos a este cenário a recente instabilidade política, com diversos líderes mundiais a perspectivarem a revisão da política económica dos seus países, procurando uma menor exposição à globalização, as perspectivas não são auspiciosas.

Sobram as incertezas, e escasseiam as certezas. Há, apesar disto, alguns sinais positivos para o sector. Acredito que os constrangimentos provocados pela actual pandemia vieram reforçar a importância do outsourcing logístico, permitindo às empresas confiarem toda a gestão logística a especialistas da área, e, desta forma, se focarem apenas no seu core de actividade. A especialização é um objectivo seguido por todas as organizações de sucesso, pelo que este é um caminho natural que as PME portuguesas estão a percorrer.

Face a todas estas interrogações, o objectivo da Portocargo passa por consolidar a actual carteira de clientes, sem nunca descurar o reforço do posicionamento junto das PME portuguesas. Queremos desempenhar um papel de relevo na retoma e na aceleração das exportações nacionais, levando a qualidade e a diferenciação dos produtos portugueses aos quatro cantos do Mundo.

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