OPINIÃO de Bruce Dawson: “Como ultrapassar as diferenças entre países ricos e países pobres no chamado primeiro mundo?”

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No mundo Ocidental em que vivemos, o chamado primeiro mundo, os países não evoluem ao mesmo ritmo, o que seria mais ou menos expectável numa conjuntura de comunidades. Na Europa, por exemplo, 62 anos após a criação da Comunidade Económica Europeia, continua a verificar-se dois ritmos entre os países do Norte e os do Sul, em que se inclui Portugal. Habitualmente, para o comprovar, os órgãos de comunicação social baseiam-se na diferença de rendimentos dos habitantes de uma e outra região. No entanto, apesar deste fator ser de extrema validade, é fundamental compararmos as diferenças entre os países ao nível corporativo.

Na verdade, nem preciso de me socorrer de dados concretos para apontar que os níveis de faturação e de lucro das empresas do Norte da Europa são incomparavelmente superiores às do Sul. São muito poucas as companhias nacionais a surgirem nos rankings das mais competitivas e lucrativas do Velho Continente.

A verdade é que a Bolsa de Valores Portuguesa é quase anedótica se comparada às de outros países europeus. Dá-me até alguma vontade de rir quando ouço falar das oscilações de 1% do PSI20. Afinal, são apenas 20 as maiores empresas nacionais cotadas na Euronext Lisboa. Vejamos, por exemplo, o caso do Reino Unido, a realidade a que, a seguir a Portugal, melhor conheço. A Bolsa de Valores britânica é líder na Europa, sendo o grupo das maiores empresas cotadas composto por 100. Mas, além destas, existem quase outras tantas a espreitar a sua entrada no top, sempre esperando que alguma das atuais 100 companhias quebre. Além desta, existem ainda as bolsas de mercados secundários.

Nos últimos 30 anos, esta diferenciação entre Norte e Sul ganhou ainda mais expressão com aquisições e fusões que resultam em grupos empresariais de dimensões gigantescas e com um sem número de tentáculos. São estas as que ficam em melhores condições, não só de competir, mas principalmente de liderar neste nosso primeiro mundo do Ocidente. Aumentam vendas, cortam custos, investem e conquistam uma cada vez maior quota de mercado face à concorrência que, há muito, se tornou global.

Em Portugal, temos o PSI20. O restante tecido empresarial é composto por pequenas e médias empresas, quase todas familiares. Algumas são eficientes e apresentam retornos interessantes. No entanto, a componente familiar é frequentemente um entrave ao crescimento rápido destas companhias. A família limita a capacidade de investimento necessário para impulsionar o crescimento e, muitas vezes, a sucessão de geração em geração não melhora a gestão, antes piorando-a. Efetivamente, a família que gere uma empresa tem dificuldade em negociar a aquisição ou fusão de um bem que sempre lhe pertenceu e que assim deve permanecer.

De acordo com a minha experiência, existem gestores nas empresas familiares que se dizem dispostos a alienar ou a negociar a fusão com uma companhia externa, mas aquele património é demasiado precioso para si, pelo que o preço de partida acaba por travar negociações posteriores.
As fusões entre armadores no mercado mundial da navegação são um fenómeno que, nos últimos anos, criou grupos gigantes e limitou a capacidade das empresas mais pequenas para competir. A consequência mais óbvia é a reduzida concorrência, pelo que se questiona onde andarão as autoridades que fiscalizam estes negócios. No entanto, são estas gigantes do transporte marítimo de contentores que oferecem possibilidades de um investimento contínuo e que procuram evoluir apostando nas tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.

Ora, Portugal não tem participação nestes grandes grupos, apesar de ter sido a Nação que, com espírito descobridor, ofereceu ao mundo muito do conhecimento que existe hoje sobre o mar. Continuamos a deixar a liderança para os outros… E porquê? As agências de navegação e empresas de transportes e logística, quase todas, senão todas, familiares, revelam pouco interesse em negociar a pensar no futuro. Daqui a 10 anos, só se manterão no mercado aquelas que encararem os dias que aí vêm. As limitações de capital terão de ser ultrapassadas e terá de haver fusões ou aposta no mercado de capitais para obter financiamento para “comprar” o seu futuro.

Ficar solteiro dá, hoje, origem a uma família rica, mas pobre amanhã.

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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