OPINIÃO de Bruce Dawson: “O movimento dos ‘gilets jaunes’ e as greves”

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A Revolução Francesa, no período entre 1789 e 1799, e que contestava a monarquia absolutista e muito particularmente o rei Louis XVI, foi um movimento social incitado pela fome, após anos agrícolas de fracas colheitas e um aumento de impostos no país. Numa situação de extrema pobreza, o povo foi espontaneamente para a rua exprimir a sua ira sobre aqueles que, até então, eram os protegidos do sistema: os nobres, os aristocratas, os ricos. Seguiu-se a deposição do rei e, posteriormente, a sua execução. O clima de revolução e de constante agitação social só terminou quando o Consulado, liderado por Napoleão Bonaparte, tomou conta do poder, impondo o seu regime ditatorial.

Depois da revolução que impôs como novos princípios a liberdade, a igualdade e a fraternidade, no Maio de 1968, foram os estudantes a revoltarem-se. Os protestos tinham como alvo o capitalismo, o consumismo, o imperialismo americano e as instituições. Ao movimento estudantil juntaram-se as greves, com 11 milhões, ou seja, 22% da população, a parar. De Gaulle teve de fugir para a Alemanha durante algumas horas. Quando regressou, dissolveu a Assembleia Nacional e marcou eleições gerais. As greves acabaram, os estudantes voltaram para as universidades e o partido Gaullista ganhou o sufrágio com uma maioria ainda mais larga.

Estamos em 2018 e um novo movimento social em França faz as primeiras páginas dos jornais em todo o mundo. O último sábado foi o quinto consecutivo de protestos daqueles que ficaram conhecidos como os “gilets jaunes” (coletes amarelos, em Português). Começou como um movimento de motoristas contra o aumento dos impostos nos combustíveis que cresceu exponencialmente através das redes sociais. De repente, o que começou como uma sugestão de um motorista no Facebook era já uma ação com 290.000 aderentes que, como sabemos, conseguiu bloquear a maioria dos camiões com destino a Portugal, por exemplo.

estivadores manifestação sealEmmanuel Macron foi eleito numa atmosfera de esperança na reforma da economia francesa. O Presidente fez muitas promessas que potenciaram esse ambiente. O problema é que Macron achava que só ele é que sabia o que era melhor para a França. Numa atitude de enorme arrogância, não quis ouvir ninguém. E o que ele não quis ouvir foi que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres no país da igualdade e da fraternidade. A classe média também tem sofrido com a política económica francesa e o aumento do imposto nos combustíveis foi a gota que fez o copo transbordar junto daqueles que têm uma vida cada vez mais difícil.

O que foi interessante foi a maneira como este movimento nasceu e proliferou graças ao enorme poder de propagação das redes sociais. Os coletes amarelos juntaram-se de forma espontânea, sem lideranças ou o envolvimento de sindicatos. Sem líder que os comande e reúna em torno de um objetivo comum, já vai na quinta semana de protestos e custou já a Emmanuel Macron, que teve de ceder, 10 biliões de euros.

Infelizmente, movimentos populares, mesmo que justificados, são aproveitados pelos extremistas de esquerda e direita para causar o caos e espalhar o medo. Efetivamente, o descontentamento é um terreno fértil para que surjam os movimentos extremistas e populistas. Veja-se o que acontece na Itália, com um Governo em que convivem, em coligação, dois partidos dos extremos do espetro político do país. O problema é que o extremismo traz violência, como a que temos assistido nas últimas cinco semanas, e facilmente se pode impor na mente dos que, descontentes, são alvos fáceis para mensagens racistas e xenófobas.

A França é realmente um país em que a reivindicação social faz parte da sua cultura e, como vimos, aparece de tempos em tempos de uma forma espontânea. O que contrasta com Portugal, em que a greve organizada é o instrumento mais vezes usado para protestar sobre o poder instituído. A greve é um direito legal para defender os trabalhadores, mas devia ser usada em última instância, até porque, utilizada como arma com a regularidade que conhecemos, perdeu força. O resultado são quebras de produção, atrasos no país, mas a restante população não adere ao protesto, pois não se revê nele e já nem liga às inúmeras greves.

porto setubal contentoresVeja-se o que acontece com as greves dos estivadores. São um travão à movimentação de cargas, prejudicando a economia. O porto de Lisboa tem sido tradicionalmente militante. Isso acontece há décadas. O resultado tem sido a baixa produção, até porque Sines e Leixões continuam a funcionar em ambiente de paz social, o que lhes granjeou a confiança dos armadores e, portanto, ganhos de produção. Uma eficiência que o sindicato que representa os estivadores de Lisboa tem tentado destruir, procurando penetrar e interferir nesses portos.

Em Setúbal, havia reivindicações legítimas, mas, uma vez alcançado o acordo, o sindicato tentou prolongar o conflito laboral, tentando integrar os trabalhadores de outros portos no mesmo. Infelizmente, já nos habituámos a acordos estabelecidos por um determinado período que são interrompidos a meio, gerando-se novos conflitos. No entanto, um acordo ser assinado e declinado no mesmo dia é inédito!

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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