OPINIÃO de Bruce Dawson: “Os avanços e recuos da ferrovia em Portugal”

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O reconhecimento do potencial de Sines como porto de águas profundas, já durante o regime do Estado Novo, foi um acontecimento digno de registo. Pensava-se em 1929 que o mesmo estivesse construído até 1945, mas tal não aconteceu. O investimento voltou a estar previsto no segundo Plano de Fomento para 1959-1964, mas, mais uma vez, não saiu do papel e do plano das intenções. Seria preciso esperar mais sete anos para que um decreto-lei, datado de 1971, estabelecesse o Gabinete do Plano de Desenvolvimento da Área de Sines, destinado a promover o desenvolvimento urbano-industrial da respetiva zona, que deu início ao processo que culminaria com a construção do porto, que entrou em funcionamento apenas em 1978.

Entretanto, tinham-se passado mais de 50 anos desde que a sua importância havia sido reconhecida pelo governo de então. Depois, foram precisos mais 25 até que Sines dispusesse de um porto de contentores. Outro atraso enorme, outro desastre para a economia nacional. É que, hoje, reconhecido como um grande porto mundial, localizado numa zona estratégica e muito mais atrativo que os grandes portos espanhóis, entrou em pleno funcionamento quando as infraestruturas portuárias de Valência e Barcelona já tinham conquistado o seu espaço.

E é de atraso em atraso que chegamos ao assunto deste artigo. Uma operação logística contempla todo o percurso desde que a carga é carregada até que chega ao seu destino, pelo que de nada serve termos um porto de contentores de topo se depois as interligações do litoral para outros pontos geográficos não são asseguradas. E por outros pontos geográficos refiro-me a toda a Península Ibérica. Isto, para dizer que as ligações ferroviárias deveriam ter sido planeadas em conjunto com a construção do porto de contentores de Sines, em 2004, o que não aconteceu. Só agora se está a lançar concurso para a construção de alguns troços até à fronteira com Espanha. Se já então estávamos atrasados, 15 anos depois estamos muito mais. Além disso, continuam os planos nacionais avulsos, ou seja, sem dimensão ibérica. Se é para nos ligarmos a Espanha, não podemos planear infraestruturas isoladamente, sem intervenção do país vizinho. Nem sequer há decisões concretas sobre as bitolas a usar, quando me parece que há muito deveria haver uma normalização dessa matéria a nível da Europa.

Mas não se pense que Sines é um caso isolado em Portugal. Também o porto de Leixões tem uma localização privilegiada, mas falta-lhe as ligações necessárias quer de ferrovia, quer rodoviárias. Com a agravante de que, enquanto Sines é um porto largamente de passagem entre norte e sul, este e oeste, Leixões é uma infraestrutura de carga local, de que muito depende a nossa economia.

O grande trunfo de Portugal é o mar, é a sua costa que serve de entrada sul na Europa. Mas, apesar disso, os sucessivos governos nunca conseguiram desenhar um plano estratégico capaz de gerir o transporte de mercadorias de forma eficiente e rápida da origem ao destino. Caminhamos rapidamente para um setor 4.0, para a adoção da tecnologia Blockchain, para não falar na inteligência artificial, e, no entanto, não somos capazes de desenhar um plano básico para que haja uma linha logística contínua do princípio ao fim.

É por todas estas razões que fico espantado e preocupado quando o Governo anuncia um plano para a ferrovia com muita pompa e circunstância, como se apenas ontem tivéssemos identificado a sua necessidade. Obviamente, é melhor tarde do que nunca, mas o lançamento de um plano que, para já, só está no papel e que vem mais de 20 anos atrasado não é um momento para celebrar, mas para reconhecer que já o devíamos ter feito.
Embora eu pense que a modernização da linha ferroviária e do equipamento é prioritária, acredito que o plano para a ferrovia deverá sempre privilegiar a carga em detrimento dos passageiros. Enquanto que, para o setor empresarial é essencial, as pessoas têm hoje ao dispor outras alternativas de transporte, muitas vezes mais económicas.

Seja como for, o importante é recuperar o atraso e justificar que merecemos o que nos foi dado: a nossa costa.

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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