OPINIÃO de Bruce Dawson: “Os temas da terceira década do século XXI”

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Com a passagem do ano, entramos na terceira década deste século e damos por nós a refletir e a tentar antever como serão os próximos dez anos num mundo de evolução cada vez mais rápida.

Para mim, e, imagino que para a maioria dos leitores, os primeiros 20 anos deste século passaram de forma bastante célere. Começou com algum pessimismo e avisos alarmistas, segundo os quais a entrada nos anos 2000 implicaria um desastre informático por causa do então chamado ‘bug do milénio’, mas a verdade é que, depois de contarmos as badaladas para o novo ano, a tão propalada calamidade não se verificou.

Mais surpreendente, foi a crise financeira internacional de 2007-08, precipitada pela falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers e que conduziu à bancarrota de muitos bancos e casas financeiras. Uma crise que se viria a repetir, ainda que mais ligeiramente, cinco anos depois. Dir-se-ia que foram os anos mais difíceis para as empresas nas últimas três décadas. No entanto, parece que já ninguém se lembra deles, até porque se continuam a cometer os mesmos erros que nos conduziram até essas crises, nomeadamente o excesso de dívida no mercado.

Preocupados com a eventualidade de crises maiores, os Bancos Centrais mantêm as taxas de inflação abaixo dos 2% considerados ideais e introduziram o chamado quantative easing (alívio quantitativo), que consiste em nada mais do que a emissão de mais dinheiro a taxas muito reduzidas. Só estas medidas permitiram que a Economia Europeia continuasse a crescer, ainda que desproporcionada e lentamente. E se taxas de inflação motivam o consumo, por outro lado, há países próximos da deflação, um cenário igualmente perigoso e que nos conduz à estagnação.
Portugal é um dos líderes Europeus na expansão do Produto Interno Bruto e o Orçamento de Estado para o próximo ano prevê um pequeno superavit. Estamos, portanto, longe das últimas décadas do século passado, com taxas de inflação acima dos 30%, mas em que os depósitos geravam um bom retorno. Atualmente, a maioria dos pequenos investidores viram-se para as Bolsas de Valores, que continuam a bater todos os recordes, sempre em alta.

Mas embora saltemos de uma escarpa para a outra, nada vai travar a evolução rápida da tecnologia. Algoritmos, Inteligência Artificial, Machine Learning, Bitcoin, Blockchain, Indústria 4.0 e outras terminologias vieram para ficar, porque são fatores de evolução. Não restam, pois, muitas dúvidas sobre quais serão as profissões do futuro, em cuja formação os jovens estão já a apostar. Evolução tecnológica e mudança de paradigma na formação, captação e retenção de jovens talentos em áreas estratégicas serão, assim, dois temas incontornáveis. Aliás, já não são tão novos assim, já que transitam dos anos 10, tendo eu já abordado em artigos anteriores a importância da revolução tecnológica para o setor dos transportes, por exemplo.

Outro tema que transita da década passada, mas que se intensificará, é o das alterações climáticas. Lamentavelmente, e embora os efeitos do aquecimento global comecem já afetar os países do chamado primeiro mundo, serão os mais pobres a pagar grande parte da fatura. Do lado ocidental em que nos encontramos, os políticos e outras elites demonstram-se incapazes de lutar pelo futuro do Planeta, como, aliás, ficou patente na última cimeira do clima da ONU, a COP25, e continuam mais preocupados com o poder e com o crescimento económico sem barreiras. Estes três temas afetam todos os setores de atividade e o dos Transportes e Logística não é exceção. Diria até que é um mercado que está já a sofrer mudanças pronunciadas, veja-se a transformação do transporte marítimo, em que as fusões estreitaram a concorrência, estando agora nas mãos de meia dúzia de gigantes dos mares.

Concentremo-nos no tema do clima. Ainda recentemente veio a público um estudo da Federação Europeia para os Transportes e Ambiente, que revelava que o nosso setor é um dos mais poluentes na Europa. Segundo o documento, a contribuição para a poluição atmosfera dos navios que operam nos portos europeus “pode ser maior do que a de todos os veículos de passageiros da Europa”, tendo crescido 19% desde 1990. E ainda na recente resolução da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar sobre a COP25, aprovada pelo Parlamento Europeu no final de novembro, exigiu-se que houvesse uma redução das emissões provenientes da aviação e da navegação que, segundo as previsões ali apresentadas, devem continuar a aumentar, até 2050, entre 300% a 700% no primeiro caso e entre 50% a 250% no segundo.

Além do transporte marítimo, o rodoviário e o da aviação necessitam de mudanças urgentes. A evolução para viaturas elétricas tem de ser mais rápida e temos de reduzir o número de viagens por avião, onde se incluem as de negócios. Atualmente, com tantos meios tecnológicos para a comunicação à distância, muitas delas nem se justificam. E se estas são notícias que implicam investimentos avultados para as empresas de transportes e logística, a conjuntura mundial não melhora o cenário, mantendo-se instável.

eleições brexitAs últimas eleições legislativas na Grã-Bretanha vieram mandatar o Governo para concluir o Brexit. Os conservadores conseguiram eleger deputados em regiões de predominância socialista. Foi uma surpresa? Não, porque quem acompanhe a atualidade sabe que o povo Britânico está farto do Brexit, mas também dos seus opositores, por defenderem medidas contrárias à democracia. Agora, não há dúvidas: o Brexit vai mesmo avançar e as empresas de transportes e logística que operam no Reino Unido têm de se adaptar a esta nova realidade.

E, como se não bastasse, agora que a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China parecia encaminhar-se para as tréguas, a tensão no Médio Oriente volta a ameaçar o Ocidente. Vamos ver se os avisos de vingança aos Estados Unidos por parte do Irão e do Iraque se concretizam, mas, certo, é que temos novamente o clima de guerra fria instalado. Um clima que pode afetar gravemente a economia mundial, a começar pelo aumento dos combustíveis fosseis, quedas nas bolsas de valores e quebras nos investimentos.

Apesar de tudo, o mundo evolui e nós com ele. E, se nos prepararmos convenientemente, as mudanças que se avizinham podem ser também grandes oportunidades.

A todos, desejo um bom ano!

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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