OPINIÃO de Bruce Dawson: “Pausa no Brexit para alívio das empresas logísticas”

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Não é verdade que as empresas de transportes e logística estejam preparadas para enfrentar uma saída sem acordo da Grã-Bretanha da União Europeia. As companhias nacionais não têm uma noção clara das dificuldades que se poderão verificar nas trocas comerciais com o Reino Unido num contexto de Hard Brexit. O conhecimento que temos até ao momento não é suficiente para antevermos quais serão os efeitos.

Na minha opinião, ninguém está preparado. Nem Governos, nem empresas. Não é por acaso que tanto o Reino Unido como a União Europeia temem o caos que se pode instalar nas fronteiras da ilha. Ainda que haja este desconhecimento, preveem-se filas de camiões e enormes atrasos nos movimentos das mercadorias, com os consequentes custos dessas demoras. Em Dover, por exemplo, só existem cinco empresas com licença alfandegária e todos elas são de pequena dimensão. Aquela com que a Garland mantém relação ainda recentemente nos confidenciou que não dispõe de mão-de-obra qualificada em quantidade suficiente e que, por isso, teria de selecionar clientes. Os restantes terão grandes dificuldades em trabalhar na região. Não esqueçamos que a Grã-Bretanha tem apenas 3,5% de taxa de desemprego e não abundam pessoas qualificadas para trabalhar nesta área. Além disso, o Brexit implica a redução da imigração. Perante esta conjuntura, onde se poderá encontrar mão-de-obra qualificada para tratar dos processos alfandegários que o processo implica?

O adiamento da saída do Reino Unido da União Europeia até 31 de outubro constituiu um grande alívio para todas as empresas deste setor. Acredito que esta extensão e a posição tomada pelos membros da União apontam para uma saída com acordo. No entanto, um Hard Brexit continua a ser uma possibilidade, ainda que Reino Unido e Europa demonstrem não desejar essa solução.

A data de 31 de outubro é flexível, já que, se o Parlamento britânico votar favoravelmente o acordo com a União Europeia antes desse dia, o processo conhece um fim. Porém, apesar de a Primeira-Ministra do Reino Unido estar disposta a desenvolver todas as negociações possíveis para que o acordo com a Europa seja aprovado, o sucesso é pouco provável. Afinal, o mesmo foi já rejeitado pelo Parlamento três vezes.

Enquanto não se resolver a questão da fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, a votação será sempre contrária ao acordo com a Europa. Porquê? Porque este inclui o chamado o Irish Backstop, que não garante uma fronteira física entre as duas Irlandas, com postos de alfândega para controlar as entradas e saídas entre os dois países. Mas, para Theresa May, seria extremamente importante conseguir uma votação favorável antes de 22 de maio para que o Reino Unido não fosse obrigado a realizar eleições europeias.

eleições brexitAlém dos custos que a organização de umas eleições contempla, a rondar os 109 milhões de libras, o plebiscito pode ser encarado como uma espécie de novo referendo ao Brexit. Se a direita ganhar poderá ser visto como um voto do povo a favor da saída da União Europeia, eventualmente muito mais dura. Pelo contrário, se a esquerda sair vencedora poderá significar que os britânicos desejam uma saída soft ou a realização de um novo referendo. Os resultados implicarão sempre leituras políticas relacionadas com o Brexit.

Há ainda a questão de a ala direita e mais conservadora querer forçar a destituição de Theresa May para tentar eleger um líder mais na linha dos Brexiteers.

Mas, no lado dos Trabalhistas, também existe muita confusão: há quem deseje que o Reino Unido se mantenha na União Europeia, há quem proponha um novo referendo e há quem prefira, incluindo o líder Jeremy Corbyn, um Brexit com acordo, mas a permanência do país dentro da união alfandegária.

Nos próximos meses, prevê-se uma maratona negocial entre o Governo e a Oposição e terá de haver cedências entre as partes. No entanto, o facto de, até agora, não terem chegado a acordo, parece indiciar que a única solução seria a manutenção do Reino Unido no seio da união alfandegária. Isto, para aqueles que pretendem forçar uma saída limpa da União Europeia, será um grande obstáculo, porque, argumentam, não é um verdadeiro Brexit; o país continuaria ligado a todos os acordos negociados pela União Europeia e seria proibido de negociar acordos bilaterais mais favoráveis com outros países fora da Europa. Outro problema é que os Trabalhistas querem sujeitar o Reino Unido às leis de trabalho e direitos humanos europeus que são muito menos flexíveis do que os que o Reino Unido pretende estabelecer uma vez fora da União Europeia.

Quase três anos depois do referendo que lançou o caos, os novos desenvolvimentos parecem indiciar uma decisão favorável às pretensões das empresas de transportes e logísticas. No entanto, ainda há muita incerteza e não podemos prever o que irá acontecer.

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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