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OPINIÃO de Bruce Dawson: “Será a greve dos motoristas a ignição para um plano para o setor dos transportes mais abrangente?”

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A posição geográfica de Portugal tem obrigado o país a exportar os seus produtos, especialmente para o Centro e para o Leste da Europa, por via terrestre. Nos anos 70 e 80, quando o volume de carga era bastante menor, as transportadoras internacionais, de várias nacionalidades, eram mais competitivas. Porém, o crescimento da economia e das exportações nacionais implicaram o desenvolvimento das empresas logísticas portuguesas, que passaram a oferecer soluções mais vantajosas.

Os salários dos motoristas, que já então eram inferiores aos praticados noutros países, não acompanharam esta tendência, bem como os turnos dos condutores eram mais extensos que os dos colegas estrangeiros, o que se enquadrava na legislação em vigor no país.

À medida que as leis europeias começaram a estipular limites nas horas permitidas para condução e períodos de descanso, o setor entrou num período de grandes dificuldades. Por um lado, em períodos de crise, os combustíveis sofreram aumentos substanciais, por outro, a pressão dos clientes num mercado ditado mais pelo preço do que pela qualidade do serviço, esmagaram as margens na cadeia de fornecimento. Todos estes fatores aumentaram os custos dos serviços de transporte terrestres, nem sempre em benefício dos camionistas.

Ora, é neste cenário, de margens de lucro cada vez mais estreitas e motoristas insatisfeitos que os sindicatos Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas e Independente dos Motoristas de Mercadorias entregaram, no passado dia 15 de julho, um pré-aviso de greve para 12 de agosto, ameaçando paralisar o país.

A tensão está latente e mesmo os camionistas de carga geral ponderam avançar para ações de luta caso qualquer cedência às reivindicações dos colegas de matérias perigosas não sejam extensivas à sua situação laboral. Algo que, na minha opinião, não faz sentido já que as exigências colocadas aos motoristas de matérias perigosas são superiores. Estes profissionais estão envolvidos nas operações de carga e descarga, têm de assegurar que as mesmas decorrem sob todas as medidas de segurança, são responsáveis por atestar o estado do equipamento, entre outras tarefas deste género.
Como já ficou demonstrado na paralisação de abril, uma greve dos motoristas deste tipo de matéria-prima pode muito bem afetar as cadeias alimentares e de consumo, a realização de viagens e outros setores. Isto, num mês em que o país vive a sua época alta em matéria de turismo e assiste a um maior movimento dos seus emigrantes.

Mas estes não são os únicos constrangimentos com que as transportadoras têm de se confrontar. A falta de motoristas já se começa a sentir e há empresas que chegam a ter 10% da frota parada por escassez de mão-de-obra.

O camião TIR internacional foi sempre uma base importante para o desenvolvimento do comércio em Portugal e são as empresas de transportes portuguesas que mais têm assegurado esse apoio. Numa economia em expansão, com as exportações a continuarem a subir, o transporte terrestre para este cantinho da Europa é essencial. É verdade que, para alguns países, este pode ser substituído pela via marítima, mas ficará condicionado às saídas em dias fixos.

Perante esta conjuntura, cada vez mais se impõe a necessidade de melhorar as outras vias de comunicação, nomeadamente a ferrovia. O comboio é estratégico para o transporte de bens de e para o estrangeiro, bem como para ligar os portos de contentores ao resto do país. O problema é que o desenvolvimento desta via depende única e somente do investimento público e este não tem privilegiado a ferrovia. Quando a intermodalidade é uma tendência, em Portugal ela será sempre limitada enquanto não se fizer esta aposta.

Por outro lado, o aumento da utilização de ferries é já notável, mas configura também limitações e está condicionada a saídas fixas. Mas estas soluções também não são perfeitas. Tanto o transporte via comboio como via ferry implica a utilização de viaturas com motoristas locais para conduzir os atrelados aos parques intermodais.

Seja como for, é improvável que o comércio internacional abrande e, portanto, o transporte terrestre continuará a ser fundamental, quer no sentido da exportação, como da importação. Cada vez mais, as empresas reduzem os seus stocks, pelo que a eficiência do transporte nunca foi tão importante para o desenvolvimento da nossa economia. É certo que, a longo prazo, algumas das limitações poderão ficar resolvidas pela introdução do camião elétrico, mas, mesmo este, precisará de motoristas, mesmo que a sua intervenção seja reduzida.

Os avisos sobre as dificuldades do setor estão à vista. As soluções para esta que é, como vimos, uma área estratégica para o país, terão de ser encontradas. Será que a ANTRAM e outros responsáveis envolvidos nas negociações conseguirão pensar numa estratégia para o setor a médio-longo prazo? Ou estaremos, como é costume, a resolver as questões mais imediatas sem uma visão de futuro? Arrisco-me a antever que, sem um plano prolongado do tempo, a tensão não ficará por aqui.

Bruce Dawson
Chairman do Grupo Garland

(Bruce Dawson escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico)

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