OPINIÃO de Vítor Caldeirinha: “Valor Económico dos Cruzeiros”

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A atividade de cruzeiros é muito importante para as cidades e regiões que têm o privilégio de ter um terminal de cruzeiros viável. Muitas cidades aspiram a ter um terminal com navios de cruzeiro, mas apenas conseguem ter algumas escalas. No entanto, os portos queixam-se que este segmento de atividade portuária é deficitário para as autoridades portuárias. E apenas com grande relutância investem sem apoios, quando pressionados pelas cidades, governos ou por ideais da missão de serviço público para a região e o turismo. Na verdade, as taxas recebidas por navio e por passageiro são reduzidíssimas e sujeitas a forte concorrência (cerca de 2 a 4 euros por passageiro em escala e taxa insignificantes por navio), não pagando praticamente nada dos elevados investimentos e custos de exploração dum terminal portuário de cruzeiros.

A concessão de terminais de cruzeiros apenas é possível se o cais for um dado adquirido e pago pelo porto ou pela
região/contribuintes, se houver suficiente dimensão de cais e escala mercado para permitir cobrir alguns dos custos e alguns investimentos na gare, e se for possível juntar outras atividades que rentabilizem as gares marítimas de apoio.

Então quem deve pagar os custos dos cais, sempre caros, mas que não trazem retorno para a autoridade portuária ou o concessionário? Quem ganham com a atividade de cruzeiros? O Estado, as regiões, a economia, as cidades. Estas devem suportar os custos dos cais de cruzeiro na totalidade, em função do seu benefício económico. É tempo de o equilíbrio da equação de investimento portuário em cais de cruzeiros ser responsabilidade das cidades, regiões e estados que lucram com a atividade, deixando de ser um encargo sem retorno para os portos, suportados pelos utilizadores da carga.

As regiões visitadas por turistas em navios de cruzeiro, são normalmente também visitadas por turistas de carro ou de avião, sendo, no conjunto, normalmente forte a importância dos cruzeiros no PIB do turismo, e uma atividade fundamental à imagem de marca turística global da região.

No caso dos cruzeiros, para além de afetarem a imagem externa, é importante moldar a qualidade do serviço oferecido pelo porto e pela região, para que os armadores escolham escalar com os seus navios e nas suas rotas. Os armadores têm poder de decisão sobre os portos que vão escalar nos dois anos seguintes, sendo fundamental terem uma imagem muito positiva dos diversos fatores de escolha do porto. Alguns desses fatores prendem-se com as condições de capacidade e operacionalidade do porto, mas também com a localização e a oferta turística da própria cidade e região.

As escalas de cruzeiros possuem efeitos diretor e indiretos no consumo, mas também no Valor Acrescentado Bruto (VAB), ou seja, no emprego e nos lucros das empresas de oferta turística da região, e sucessivamente, na procura de serviços e bens dos restantes setores. O mercado de cruzeiros possui ainda um impacto importante no turismo de hotel, uma vez que muitos dos turistas de cruzeiro regressam mais tarde para estadias mais prolongadas, como mostram os inquéritos realizados.

Alguns estudos, apontam que os excursionistas de cruzeiros são responsáveis por mais de 3% do consumo turístico das regiões e gastam 45% em bens e serviços, 30% em restauração, 20% em transportes e o restante noutros setores. Segundo outros estudos, os gastos médios por turista de cruzeiro poderão chegar a 63 Euros. Deste valor, 40% são gastos em transportes e excursões, 20% em restauração, 15% em recordações e 10% em calçado e vestuário.

Os serviços que vedem diretamente aos cruzeiristas são:
a) O porto, o terminal, as autoridades portuárias, os agentes
de navegação, os fornecedores de alimentos para o navio e
outros materiais de reparação, manutenção;                                                                                                                                  b) As lojas de recordações e de moda;
c) Os transportadores locais, táxis e autocarros;
d) Museus, casinos, monumentos, passeios a zonas
monumentais e igrejas;
e) Fornecedores de turismo da natureza e visita de aldeias e
cidades no interior;
f) Fornecedores de turismo náutico e passeis fluviais;
g) Fornecedores de turismo gastronómico, vinhos, restauração
e bem-estar;
h) Serviços de sol e mar, eventos, embora com menor peso.

Alguns estudos apontam um gasto turístico de cada passageiro por via marítima de 70 Euros. Fontes internacionais
apontam para gastos de 70 a 80 Euros por tripulante em compras diversas e casinos fora do navio de cruzeiros. De
acordo com outros estudos, o gasto médio dos passageiros é de 57 a 62 Euros. Estes gastos são depois traduzidos em VAB e em impostos diretos e indiretos.

Um indicador importante de impacto indireto do segmento de cruzeiros no turismo é a lealdade do turista face à experiência e à perceção do binómio qualidade/preço. A probabilidade de voltar a visitar a região ou de recomendar a amigos implica um impacto positivo na imagem e em futuras visitas destes turistas e amigos, com impacto económico indireto e posterior na região.

Alguns estudos apontam que, em alguns casos, cerca de 50% dos turistas de cruzeiro referem pretender voltar a visitar regiões de escala em navio de cruzeiro que mais gostaram ou para estadias mais prolongadas e quase 75% referem recomendar as regiões de escala que gostaram a amigos. Uma outra contribuição importante refere-se ao equilíbrio da balança de pagamentos através da procura de bens e serviços pelo consumo dos turistas, com a criação de emprego com os serviços diretos e indiretos prestados aos turistas.

Um impacto económico importante é a melhoria da qualidade de vida da população local e o aumento dos rendimentos, suportando o desenvolvimento da região e diversificação da economia local, funcionando como catalisador para o desenvolvimento de outros setores económicos. Também se verifica o aumento da competitividade e criação de economias de escala, reduzindo custos de produção de bens para consumo e exportação.

Um primeiro benefício dos cruzeiros é com o impacto económico total, direto, indireto e induzido, do investimento na fase de obra dos terminais, cais e gares, que pode ser calculado com base no multiplicador económico normal do investimento de 0,30. Ou seja, por cada euro investido, 0,30 euros são os impactos adicionais na economia.

Os efeitos socioeconómicos indiretos e induzidos dos turistas adicionais podem calculados com base no multiplicador económico de rácio da matriz de input-output de 1,5. Ou seja, por cada euro gasto pelos cruzeiristas, existem impactos de 1,5 euros indiretos e induzidos na economia. Também podem ser estimados os benefícios com os efeitos indiretos da 2ª e 3ª visita prolongada de passageiros de navios de cruzeiros que escalem o terminal de cruzeiros. Pode considerar-se o valor de consumo de 75 Euros por dia, durante 5 a 7 dias em estadias prolongadas nas visitas por avião ou por carro, para uma taxa de retorno de 20 a 30%.

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