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J. Martins Pereira Coutinho: “A TAP brasileira e a sua gestão”

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É um facto que a TAP, desde o ano 2000, tem sido gerida por brasileiros, chefiados por Fernando Pinto. Na altura, o Governo de António Guterres decidiu privatizá-la e o então ministro Jorge Coelho escolheu Fernando Pinto para seu presidente-executivo. Uma escolha estranha, dado que tinha entrado na TAP como representante da Swissair, com a missão de desvalorizá-la antes de confirmar a sua compra, que não chegou a acontecer.

Mais tarde, uma revista brasileira elegeu Fernando Pinto como o salvador da companhia aérea ‘portuguesa’! E referia que «com cinco lições de gestão, o gaúcho Fernando Pinto transformou uma estatal agonizante em uma empresa lucrativa e pronta para ser privatizada».



TAP Air…Brasil?

Uma afirmação ultrajante, que a TAP nunca desmentiu… Segundo o entrevistador, Fernando Pinto conseguiu transformar a TAP num caso de sucesso do mundo da aviação. E acrescentou que, para ele aceitar o cargo, impôs levar mais três brasileiros que tinham trabalhado com ele na falida VARIG, nomeadamente Luiz Mór, Michael Connoly e Manuel Torres, que passaram a gerir a área comercial, as finanças e as operações da TAP.

fernando pinto tapOu seja, quatro brasileiros, em conluio, dominavam, em circuito fechado, toda a estrutura económica, financeira e operacional da TAP! Era uma equipa que funcionava como uma sociedade secreta, onde não se admitia a interferência de terceiros, incluindo representantes do accionista Estado.

Para além disso, segundo a revista, para trabalharem no nosso País, estes brasileiros contrataram professores para terem aulas de história, de negócios e cultura de Portugal.

Além desta iniciativa, estes ‘génios’ brasileiros foram diversas vezes à Bélgica, para conversarem com os advogados da AEA e conhecerem as leis locais… Tudo, aparentemente, para prepararem um plano que previa que a TAP apresentasse lucros nos dois anos seguintes. Porém, os anunciados lucros transformaram-se em prejuízos, que levaram a empresa à falência.

Política laboral portuguesa contra as pretensões brasileiras

Como desculpa do seu fracasso, Michael Conolly, o braço direito de Fernando Pinto, queixava-se de que «havia gente demais, fazendo pouco». E afirmava que era possível fazer a mesma operação, com menos 10% dos 9.000 trabalhadores da empresa. Ao mesmo tempo, lamentava não poder despedir pessoal em Portugal, como ele idealizava. Lembramos que, no Brasil, os despedimentos eram feitos na hora, sem aviso prévio e sem indemnização.

Michael Conolly tapNa entrevista, é também referido que o mercado brasileiro fez com que a TAP deixasse de ser local, para se tornar uma empresa internacional. Uma falsidade escandalosa, que Fernando Pinto não desmentiu. Além disso, omitiu um grave erro da sua danosa gestão, quando cancelou as tradicionais rotas da TAP para a África do Sul e Canadá, onde viviam centenas de milhares de portugueses, que ficaram sem ligações aéreas directas a Portugal. E, a nível doméstico, decidiu cancelar voos regulares de Lisboa para o Porto e Faro, que as companhias aéreas de baixo custo aproveitaram para crescer exponencialmente, à custa do abandono da TAP!

É, porém, estranho que não tenha havido uma investigação sobre as razões deste desprezo da TAP pelas comunidades portuguesas no estrangeiro e também pela preferência de Fernando Pinto pelo mercado brasileiro e pela decisão de comprar a brasileira VEM sem o aval do Estado, dono da TAP.

O início de tudo

A história lamentável deste negócio começou em 8 de Novembro de 2005, quando foi assinado um contrato de compra da VEM, no valor de 62 milhões de dólares. Uma empresa da falida VARIG, presidida por Fernando Pinto, antes de vir para a TAP. Para concretizar o negócio, a TAP formou o consórcio Aero LB com a Geocapital, administrada por Diogo Lacerda Machado, o melhor amigo do primeiro ministro António Costa, que o escolheu para administrador da TAP…

Apesar da mudança de nome para TAP Engenharia e Manutenção, a VEM é um poço de milhões de euros de prejuízos. Diogo Lacerda Machado, porém, ao arrepio do bom senso e da realidade dos factos, continua a defender a sua compra, como administrador da empresa. Uma estranha defesa, que o seu amigo Fernando Pinto certamente agradece…

Talvez por isso, no Congresso da APAVT, em Macau, Lacerda Machado tenha afirmado que «se a TAP não tem feito esse investimento absolutamente estratégico, decisivo para chegar onde chegou hoje, o tempo seria muito pior». Estranhamente, este amigo especial de António Costa não esclareceu «o que seria muito pior» e continuou a defender a sua dama, ignorando que a TAP SGPS teve prejuízos de 27,7 milhões de euros, além de 85 milhões em 2014 e 156 milhões, em 2015.

Que gestão?

Além desta realidade, no primeiro semestre de 2017, os resultados líquidos da empresa foram de 52 milhões de euros negativos, quando, no mesmo período homólogo de 2016, eram de 50.5 milhões de euros. No mesmo semestre de 2017, a TAP tinha um passivo de 2.282,6 milhões de euros, contra 2.126 milhões de euros no mesmo período de 2016, ou seja, mais 7,3%.

tap parpublicaSão números funestos, que constam do relatório e contas da Parpública, que, após a reversão da privatização, passou a controlar 50% do capital da TAP. Porém, a Parpública alega que não consolida as suas contas, por considerar que, «apesar de deter 50% dos direitos de voto na TAP, não detém o controlo, mas apenas uma influência significativa».

Esta denúncia de incompetência do Governo, parece não incomodar o primeiro-ministro António Costa e o seu amigo Lacerda Machado. Além disso, fingem desconhecer a gigantesca dívida da TAP, que cresceu durante a gestão de Fernando Pinto. Em 2017, apenas em juros, a TAP devia 130 milhões de euros, mas, por não poder pagar a dívida, a Banca aceitou o adiamento do seu pagamento, para 2022!

Por alguma razão, antes da privatização, Fernando Pinto anunciou que não havia dinheiro para pagar salários! E, em 2015, afirmou que estava à espera de investimentos para «a colocação do pedido de 53 aviões», porque, como acrescentou, «estávamos restritos em tesouraria». Ou seja, os cofres da TAP estavam vazios!

Em 2014, a TAP já tinha registado 512 milhões de euros de capitais próprios negativos, além de 700 milhões de euros em dívidas à Banca. Por isso, ou não, o accionista David Neeleman sublinhou, publicamente, que «o pior que pode acontecer é perder uma empresa que gera mais de 2 mil milhões de receitas para a economia portuguesa e da qual dependem 13 mil famílias».

Falta ou excesso de aviões?

azul aviaoCuriosamente, em 2016, a companhia aérea Azul, de David Neeleman, também enfrentava sérias dificuldades económicas e financeiras. No entanto, depois do negócio de aluguer de aviões novos e usados à TAP, a Azul recuperou em termos financeiros. Aparentemente, tinha aviões em excesso…

Em todo o caso, é indispensável esclarecer se os aviões eram mesmo necessários à operação da TAP e se a criação da ponte aérea Lisboa – Porto, não serviu de justificação para o aluguer de aviões. Além dos muitos slots que a TAP utiliza no Aeroporto da Portela, esta ponte aérea é uma fonte de prejuízos! Daí, a necessidade de conhecer as razões que levaram à sua criação e, também, se os aviões e motores alugados à Azul são, ou não, indispensáveis…

Entretanto, na rota São Paulo – Lisboa, a TAP desistiu de cinco voos semanais, a favor da companhia Azul, de David Neeleman. E também desistiu de comprar os aviões A350, devido à intervenção de David Neeleman… Em face destas estranhas cedências da TAP, é importante saber se os administradores escolhidos pelo primeiro-ministro António Costa actuaram, ou não, como marionetas de quem sabe de aviação e de negócios…

É, no entanto, indesmentível que quem manda na empresa são os brasileiros e não o accionista maioritário Estado. Isto confirma a incompetência do Governo PS/PCP/BE, cujo ministro das Infra-estruturas, Pedro Marques, apregoa, levianamente, que tudo passa por ele e pelo primeiro-ministro António Costa, que, ao reverter a privatização da TAP, vai ser um dos seus coveiros.

Aquando da reversão, consta que a dívida da TAP à Banca foi garantida pelo Estado. Curiosamente, os aviões que a TAP encomendou também têm o aval do Estado!

Lamentavelmente, é o resultado das ruinosas negociações na reversão da privatização da TAP, imposta por António Costa, com elevados custos para o Estado e para os contribuintes.

Por outro lado, se a TAP for à falência, o consórcio privado, liderado por David Neeleman, não será penalizado. E, entretanto, vai colhendo lucros com o aluguer de aviões novos e usados e o domínio na gestão da TAP, onde tem substituído portugueses qualificados por brasileiros da sua confiança, auferindo escandalosos ordenados.

Tudo em família…

antonoaldo neves tapRecentemente, depois de 18 anos de gestão ruinosa, Fernando Pinto também foi substituído pelo conterrâneo Antonoaldo Neves, ex-presidente da companhia Azul, de David Neeleman. No entanto, continua como consultor nos próximos dois anos e, aparentemente, com as mesmas mordomias e o fabuloso ordenado de presidente. Tudo em família!…

E tudo devido à ruinosa intransigência política do primeiro-ministro António Costa, que queria tomar 51% do capital da TAP, depois de ser privatizada em 61%! Um radicalismo ideológico que vai custar caro aos Portugueses, não só porque o Estado tem apenas 50% do capital, como os privados podem partir quando expirar o prazo do acordo, ou noutras situações…

Por algum motivo, depois de ameaçar anular o contrato com o consórcio privado, com acordo ou sem acordo – como faria qualquer ditador – o primeiro-ministro António Costa acabou cordeirinho, aceitando que os privados mandassem na TAP sem a intromissão dos seus boys, que agem como figurantes de um teatro onde os actores brasileiros brilham, na defesa dos seus interesses pessoais e empresariais…



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