Shipping infectado: coronavírus já provocou perdas de 1,7 mil milhões de dólares

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Efeitos virulentos de maior? Ou apenas o contágio do pânico globalizado? Para o transporte marítimo de mercadorias, pilar do comércio mundial, tal interrogação é indiferente: a verdade prática é que o fenómeno do novo coronavírus, que despontou a partir de Wuhan (na China), está, de forma epidémica, a contaminar o Shipping e a enfraquecer as suas defesas imunitárias. Prova disso, explica a consultora sueca Sea Intelligence, são as perdas de 1,7 mil milhões de dólares que a indústria sofreu desde o surgimento e disseminação global do Covid-19.

Coronavírus já custou 1,7 mil milhões de dólares de receitas à indústria

Como traduzir tal constatação de um modo mais ilustrativo? Pense, por exemplo, que tal cifra equivale a um ano de operação do Porto de Sines, o maior porto português em termos de volumes movimentados (recorde-se que o porto alentejano fixou, em 2018, o recorde de movimentação em termos nacionais, com 1,75 milhões de TEU). Detalha a Sea Intelligence que o vírus deixou em stand by 1,7 milhões de TEU em portos e terminais marítimos das principais rotas do shipping internacional. Levando em conta a premissa de que o valor médio aproximado do frete marítimo contentorizado se situa nos mil dólares por TEU, é fácil concluir que o coronavírus já custou 1,7 mil milhões de dólares de receitas à indústria.

Assim, 2020 não se limita a lançar novos desafios ambientais ao transporte marítimo de cargas (pela implementação da IMO 2020 e da sua Sulphur Cap), mas também novas provações ao nível da abordagem a uma ameaça epidémica global que força a medidas de contenção logística, conduz à contracção do consumo e semeia a incerteza, materializada num comportamento defensivo e expectante por parte de todos os actores económicos.

Nem o fecho de fronteiras é um tema indiscutível. Para o Shipping, o Covid-19 é um péssimo rumor gerador de pânico, daqueles que afundam as acções de uma empresa – mesmo que, num cenário ideal, o vírus fosse inofensivo, a verdade é que nunca o Shipping sairia incólume.

E, de facto, não está a sair ileso, muito pelo contrário, ou não fosse a China (país por onde o vírus arrancou a sua diáspora) responsável por cerca de 40% do movimento nos 50 maiores portos marítimos que operam contentores em todo o mundo. Só Xangai movimenta mais do que os cinco maiores portos dos EUA, em volume combinado, segundo dados do Fórum Económico Mundial. Se tivermos em conta que o volume global de contentores cresceu 0,7% em 2019, como denota, o coronavírus «já anulou mais do que o crescimento global total de 2019», notou a Sea Intelligence. A soma de contentores actualmente em estagnação, parados portos, terminais e navios, corresponde à capacidade total de 90 dos maiores porta-contentores.

A imagem panorâmica torna-se cada vez mais clara e os contornos dos efeitos nocivos do coronavírus no Shipping cada vez mais notórios: segundo narra a consultora marítima Alphaliner, mais de uma em cada duas saídas de navios da Ásia para o Norte da Europa vêm sendo canceladas. As reduções de capacidade durante o período de oito semanas desde o feriado do Ano Novo Chinês deverão atingir cerca a fasquia dos 700.000 TEU. A isto junta-se o factor constritivo da redução de capacidade alocada em várias outras rotas, conduzindo ao enfraquecimento das cadeias globais de abastecimento – a rota Ásia – Mediterrâneo, por exemplo, é atingida em cerca de 290.000 TEU; as linhas do transpacífico perderão 680.000.

Shipping navega tempestade perfeita no primeiro trimestre de 2020

Assim, o primeiro trimestre de 2020 vem-se revelando um duro desafio para a estabilidade da indústria: os armadores deparam-se com a forçada adaptação das suas frotas às novas directrizes da IMO (muitos fazendo onerosos investimentos em navios movidos a GNL, scrubbers cuja instalação ultrapassa os 2 milhões de euros por navio), que veio alterar – a conclusão é unânime entre os actores da indústria – o paradigma energético no Shipping, mas também com um entrave, este totalmente inesperado, que força a reduções de capacidade e obliteração de serviços. Será previsível que comércio o intra-asiático saia fortemente afectado, já que é uma conexão preferida para as exportações chinesas rumo a fabricantes estrangeiros.

Mas se pensa que o Covid-19 apenas afecta o transporte marítimo, pense de novo, pois nada no Shipping é particular. Tudo é global, interligado e interdependente. Toda a cadeia logística acaba afectada: se o transporte marítimo de mercadorias é atingido, todos os elos da cadeia sofrem as consequências, não apenas os armadores. Toda a cadeia de valor é, a montante e a jusante, afectada pelo vírus: transitários e operadores logísticos, consignatários, armazenistas, alfândegas, autoridades marítimas e administrações portuárias – a própria administração portuária de Sines (APS), tal como a Revista Cargo noticiou, viu-se forçada (como muitas outras) a implementar um plano de contingência face ao novo coronavírus.

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